As Misérias do Processo Penal
Na universidade, por uma série de circunstâncias com
as quais eu compreendi mais tarde o verdadeiro desígnio,
desviaram-me do Direito Penal para o Direito Civil. Assim,
durante longos anos, eu venho sendo mais um civilista do que um
penalista; também a minha atividade científica
desenvolveu-se mais amplamente no terreno do Direito Civil. Mas,
subsistiu em mim uma atração secreta dirigida ao
Direito e ao Direito Processual Penal. Existia uma espécie
de corrente subterrânea que, ao chegar a certo ponto,
emergiu à superfície da terra. Estaria fora de
lugar a recordação de detalhes das ocasiões
que a vida me ofereceu; o fato é que, um dia, da
cátedra de processo civil fui passado àquela do
Direito e depois à do processo penal. E aconteceu como
acontece na montanha quando, depois de um longo caminho encravado
entre as rochas, se alcança o cume e finalmente se abrem
os olhos defronte o panorama iluminado pelo sol.
Assombram-se alguns por esta comparação? O Direito
Penal não está no vale, melhor posicionado do que
em elevações? Não é o direito da
sombra melhor do que o direito do sol? A verdade é que,
segundo uma admirável intuição de São
Paulo, nós olhamos as coisas no espelho e por isso as
vemos invertidas. O Direito Penal, sim, é o direito da
sombra; mas é preciso atravessar a sombra para chegar
à luz. Ao menos para mim foi o que aconteceu. Cada um faz
o seu caminho; e o caminho, como a fisionomia de cada um,
é diferente do caminho dos outros. Eu me dediquei a tratar
com os chamados homens de bem, considerei-me um homem de bem; e
não dei um passo para cima. Foi o conhecimento dos
trapaceiros que me fez reconhecer que não sou de fato
melhor que eles ou que eles não são de fato piores
do que eu; e era isto que necessitava, para um homem como eu,
mais inclinado ao orgulho, senão propriamente à
soberba. Quero dizer que também estive por muito tempo nas
arquibancadas do circo olhando do alto os gladiadores, como se
não fossem meus irmãos. Se aqueles que estão
lá no meio arriscando a vida fossem nossos irmãos,
não é certo pensar que correríamos para
eles, para separá-los e para salvá-los? Com
precisão, não poderia dizer como ocorreu que, pouco
a pouco, de estranho se converteram em irmãos. Mas, em
definitivo, isso aconteceu; e é o que importa. Desde
aquele dia abriu-se diante de mim um magnífico horizonte,
iluminado pelo sol.
Editora: Russell
Autor: FRANCESCO CARNELUTTI
ISBN: 9788589251938
Origem: Nacional
Ano: 2007
Edição: 1
Número de páginas: 90
Acabamento: Brochura
Formato: Médio
De: R$ 22,00
Por: R$ 19,90

