Leite Derramado
Um homem muito velho está num leito de hospital. Membro de
uma tradicional família brasileira, ele desfia, num
monólogo dirigido à filha, às enfermeiras e
a quem quiser ouvir, a história de sua linhagem desde os
ancestrais portugueses, passando por um barão do
Império, um senador da Primeira República,
até o tataraneto, garotão do Rio de Janeiro atual.
Uma saga familiar caracterizada pela decadência social e
econômica, tendo como pano de fundo a história do
Brasil dos últimos dois séculos. A visão que
o autor nos oferece da sociedade brasileira é extremamente
pessimista: compadrios, preconceitos de classe e de raça,
machismo, oportunismo, corrupção,
destruição da natureza, delinquência.
A saga familiar marcada pela decadência é um
gênero consagrado no romance ocidental moderno. A primeira
originalidade deste livro, com relação ao
gênero, é sua brevidade. As sagas familiares
são geralmente espraiadas em vários volumes; aqui,
ela se concentra em 200 páginas. Outra originalidade
é sua estrutura narrativa. A ordem lógica e
cronológica habitual do gênero é embaralhada,
por se tratar de uma memória desfalecente, repetitiva mas
contraditória, obsessiva mas esburacada.
O texto é construído de maneira primorosa, no plano
narrativo como no plano do estilo. A fala desarticulada do
ancião, ao mesmo tempo que preenche uma
função de verossimilhança, cria
dúvidas e suspenses que prendem o leitor. O discurso da
personagem parece espontâneo, mas o escritor domina com
mão firme as associações livres, as
falsidades e os não-ditos, de modo que o leitor pode ler
nas entrelinhas, partilhando a ironia do autor, verdades que a
personagem não consegue enfrentar.
Em suas leves variantes, as lembranças obsessivas revelam
sutilezas ideológicas e psíquicas. E, como essas
lembranças têm forte componente plástico,
criam imagens fascinantes. É o caso do "vestido
azul" comprado pelo pai para a amante, objeto de alta
concentração significante. Esse objeto se expande,
no nível da narrativa, como índice de
elucidação da intriga, no nível
fantasmático, como obsessão repetitiva do filho, e
no nível sociológico, como ilustração
dos usos e costumes de uma classe. Tudo, neste texto, é
conciso e preciso. Como num quebra-cabeça bem concebido,
nenhum elemento é supérfluo.
Há também um jogo com os espaços onde
ocorrem os acontecimentos narrados. As várias casas em que
o narrador morou, como as décadas acumuladas em suas
lembranças, se sobrepõem e se revezam.
Recolocá-las em ordem cronológica é assistir
a uma derrocada pessoal e coletiva: o chalé de Copacabana,
"longínquo areal" dos anos 20, é
substituído por um apartamento num edifício
construído atrás de seu terreno; esse apartamento
é trocado por outro, menor, na Tijuca; o palacete familiar
de Botafogo, vendido, torna-se estacionamento de embaixada; a
fazenda da infância, na "raiz da serra",
transforma-se em favela, com um barulhento templo
evangélico no local da velha igreja outrora consagrada
pelo bispo. Embaixo da última morada do narrador, nesse
"endereço de gente desclassificada", está
o antigo cemitério onde jaz seu avô.
Percorre todo o texto, como um baixo contínuo, a
paixão mal vivida e mal compreendida do narrador por uma
mulher. Os múltiplos traços de Matilde, seu
"olhar em pingue-pongue", suas corridas a cavalo ou na
praia, suas danças, seus vestidos espalhafatosos, ao mesmo
tempo que determinam a paixão do marido e impregnam
indelevelmente sua lembrança, ocasionam a infelicidade de
ambos. Os preconceitos e o ciúme doentio do homem barram a
realização plena da mulher e levam-na a um triste
fim, que, por não ter nem a certeza nem a teatralidade dos
desfechos de uma Emma Bovary ou de uma Ana Karênina, tem a
pungência de um desastre. Embora vista de forma indireta e
em breves flashes, Matilde se torna, também para o leitor,
inesquecível.
O fato de nem no fim da vida o homem compreender e aceitar o que
aconteceu torna seu drama ainda mais lamentável. Os
enganos ocasionados por seu ciúme são
tragicômicos, e o escritor os expõe com uma acuidade
psicológica que podemos, sem exagero, qualificar de
proustiana.
Outras figuras, fixadas a partir de mínimos traços,
também se sustentam como personagens consistentes: o
arrogante engenheiro francês Dubosc, que a tudo reage com
um "merde alors"; a mãe do narrador, que, de
tão reprimida e repressora, "toca" piano sem
emitir nenhum som; a namorada do garotão com seus
piercings e gírias. É espantoso como tantas
personagens conseguem vida própria em tão pouco
espaço textual. Leite derramado é obra de um
escritor em plena posse de seu talento e de sua linguagem.
- I.S.B.N.: 9788535914115
- Cód. Barras: 9788535914115
- Reduzido: 2632177
- Altura: 23 cm.
- Largura: 16 cm.
- Acabamento : Brochura
- Edição : 1ª Ed. / 2009 / MARÇO
- Idioma : Português
- País de Origem : Brasil
- Número de Paginas : 200
