Fábrica de sonhos e burgers

Em meu livro “Até o dia em que o cão morreu” há um diálogo em que o narrador, um sujeito um tanto amargo e formado em Letras, informa à nova namorada que “deu aula em um desses cursos falcatrua de inglês, tipo Yázigi”. A namorada defende a escola de idiomas, dizendo que estudou lá durante sete anos e fala inglês muito bem. O narrador retruca: “É isso, eles levam sete anos pra ensinar inglês pra alguém.”

Isso está na edição original de 2003, uma publicação independente. Quando o livro foi reeditado pela Companhia das Letras, em 2007, a menção ao Yázigi precisou ser cortada, depois de uma, digamos, recomendação enfática dos editores. Descobri que havia um histórico perturbador de processos por causa de menções a marcas, empresas ou produtos em contexto negativo dentro de livros de ficção.
— Daniel Galera, Fábrica de sonhos e burgers, O Globo

É famosa a história de como os personagens de Stephen King bebem “uma Coca” em vez de beber “um refrigerante”. Só que o Brasiu é o país onde falar mal de alguém é proibido por lei. Mesmo que você seja só fruto da imaginação de alguém.

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Palpites sobre o lance de limpar seu banheiro para abrir sem medo um Mac Book no ônibus

O curioso é que aqueles brasileiros que queixam-se amargamente de limpar o próprio banheiro, elogiam incansavelmente a possibilidade de andar à noite sem medo pelas ruas, sem enxergar a relação entre as duas coisas. Violência social não é fruto de pobreza. Violência social é fruto de desigualdade social. A sociedade holandesa é relativamente pacífica não porque é rica, não porque é “primeiro mundo”, não porque os holandeses tenham alguma superioridade moral, cultural ou genética sobre os brasileiros, mas porque a sociedade deles tem pouca desigualdade. Há uma relação direta entre a classe média holandesa limpar seu próprio banheiro e poder abrir um Mac Book de 1400 euros no ônibus sem medo.

Da relação direta entre ter de limpar seu banheiro você mesmo e poder abrir sem medo um Mac Book no ônibus (clique e leia!)

Ano passado ficamos sem empregada e falei pra mim mesmo. “Acabou. Chegou a hora, não vamos conseguir encontrar outra e vou ter que limpar chão e banheiro.” Não tenho nada contra essas tarefas, fora da preguiça e de preferir gastar esse tempo salvando o universo de alguma ameaça gigante no videogame. Afinal de contas sou um cara movido a prioridades.

No fim conseguimos a empregada, ela vai todos os dias, tratamos e pagamos ela bem mas eu concordo que é louco esse pessoal que acha que o Brasil um dia vai virar primeiro mundo mas continuaremos tendo empregadas que fazem tudo durante o dia (ao contrário de cozinheiras, lavadeiras, etc.) e babás-vestidas-de-branco cuidando de seus lindos filhos. Essas pessoas não querem que o Brasil vire primeiro mundo. Elas querem que elas virem primeiro mundo. A conta não fecha, galera.

Por que as eleições americanas são mais legais que as nossas?

Hoje é dia de eleição nos EUA e, apesar de nem ter lido tanto assim sobre a campanha, acabei consumindo mais coisas sobre as eleições de lá do que sobre as eleições daqui. (obs: como ainda não transferi meu título para São Paulo não voto em nenhuma das duas eleições)

Daí naqueles momentos filosofais dentro do ônibus fiquei me perguntando porque gostei esse interesse maior pelas coisas lá de longe. E venho por meio desta compartilhar minha resposta.

Não importa o resultado das eleições americanas o impacto para nós aqui abaixo da Linha do Equador vai ser indireto na maioria esmagadoras das vezes. Eles vão mudar suas políticas lá, isso vai mexer no câmbio, no tempo de espera pra tirar um visto de turista, até mesmo nas ofertas de emprego mas as leis, políticas e acordos são de lá e não daqui. Eleição para prefeito é o oposto exato disso. Como tanto se fala a cada quatro anos, você vive na cidade e não no estado ou país e por isso o prefeito é o executivo de governo que mais vai impactar sua vida.

Portanto é exatamente por isso que eu me interesso mais pelas eleições americanas. Elas são ricas (literalmente), disputadas, com táticas e manobras, com partidários inflamados dos dois lados — mas são de mentirinha. Pra gente no Brasil, claro, mas são de mentirinha. São tão emocionalmente distantes quanto um final de temporada de Guerra dos Tronos ou o episódio 100 de Avenida Brasil. E para completar ainda tem um vilão macabro que você tem certeza que não vai dar certo se for eleito mas os personagens, ops, eleitores não conseguem ver isso e apóiam loucamente o cara com 45% das intenções de voto.

Quantas emoções!

73% dos brasileiros assistem à TV enquanto usam redes sociais

Aponta estudo.

Resultados do Relatório de Tendências de Consumo em TV e Vídeo de 2012, estudo anual realizado pelo ConsumerLab, o laboratório de pesquisas de comportamento da Ericsson, revelam que 62% das pessoas assistem à TV enquanto usam redes sociais – um fenômeno denominado Social TV. No Brasil, este número é ainda maior: 73%, um aumento de 25% em relação ao ano passado.

A questão não é se a internet vai matar a TV ou não. Eu sei. A TV não matou o rádio. Mas também não é como se o rádio tivesse ainda hoje a força e importância que tinha 60 anos atrás. Mas também não é disso que estou falando. Se mais da metade das pessoas vê TV e computador ao mesmo tempo* onde você acha que está a atenção delas quando a novela para e entra seu comercialzão bonitão?

* Esse número de 73% assim solto não diz absolutamente nada. 73% de quem? Dos internautas? Dos usuários de redes sociais? Das pessoas que tem TV? Não muda o meu ponto, mas… tá tosco.