Próxima parada, campos de concentração

Parece que o soldado americano que atirou granadas contra seus próprios companheiros era muçulmano. Este blogueiro levanta a bola de que, de agora em diante, todo muçulmano é automaticamente suspeito de traição, mesmo os que sejam cidadãos americanos.

Mesmo que a raiva dele seja justificada isso só leva a uma coisa: segregação e campos de concentração, coisas pelas quais os americanos deviam ser contra por princípio se ainda querem que alguém engula o papo de que representam a liberdade e a democracia. É claro que o governo Bush não faria uma coisa dessas. Ele criaria “centros de relocação” ou algum outro nome legal com “liberdade” no meio.

Não é absurdo da minha cabeça dizer isso. Durante a Segunda Guerra Mundial os EUA mantiveram em seu território campos de concentração para japoneses (chamados, é claro, de “campos de internato”). Mas obviamente ninguém aprende isso na escola.


Ao vivo

Eu gosto das guerras americanas. Nelas só prédios são destruídos. Fumaça, luz, barulho, um treme-treme, mas é bom saber que ninguém morreu. Afinal de contas se tivesse morrido eles iam mostrar, não é? Não é?


Oscaguei pra guerra

Só pra constar: todo mundo sabe que esse lance de não ter tapete vermelho no Oscar não tem nada a ver com “constrangimento” por parte dos artistas, né? É simplesmente para que ninguém tenha chances de dar entrevista.

Duvida?

Para se precaver de gafes, a Academia tomou cuidados. Os participantes da cerimônia, entre os quais Caetano Veloso, que cantará o tema do filme “Frida”, já foram prevenidos de que não poderão fazer, em suas falas ou discursos, qualquer menção à guerra — se o fizerem, a música sobe e a fala é cortada.


Helicóptero cai no Kwait

Começou a velha história. Aeronaves americanas nunca “são abatidas” elas “caem”.


Pegue um panfleto

If the Oil Industry is destroyed your livelihood will be RUINED!


Land of the free my ass!

Campanha pede boicote a artistas “amantes de Saddam”

Um jornal americano lançou hoje uma campanha de patrulhamento a atores e músicos americanos contrários à guerra no Iraque. O tablóide nova-iorquino New York Post publicou na sua edição de hoje um texto em que pede o boicote a uma lista de estrelas do cinema e da música. O jornal chama os artistas, entre os quais estão Martin Sheen, Danny Glover e Susan Sarandon, de “amantes de Saddam”. [ via Cabral, pelo ICQ ]

O texto original.

Leitores descontentes com o jornal.

Repitam comigo: que chafurdem todos na merda.


Cabôoo! (o prazo de Saddam)

Bem amigos da Rede Globo. Começa a terceira guerra mundial.

Você acha que os americanos estão errados em apoiar a guerra maluca do seu presidente? Ora, mas a única coisa que vai mudar na vida deles é que não vai ter tapete vermelho no Oscar. O resto continua como antes. Até, é claro, outro maluco tacar outro avião na cabeça de alguém e eles se perguntarem “Por que nos odeiam??? É por representarmos a paz e a liberdade?”


H1-B

O pau está comendo no Slashdot na discussão sobre o processo que ex-funcionários da Sun estão movendo contra a empresa, alegando que foram mandados embora e substituídos por imigrantes-temporários (que têm o código de visto H1-B) que aceitam trabalhar por menos.

Como ex-H1-B só tenho a dizer que os trabalhadores americanos estão recebendo de volta a tal globalização e “mercado livre” que seu governo tanto apregoa. Quando uma empresa, digamos, brasileira reclama que não consegue competir com produtos importados o governo americano só diz “sinto muito, você tem que se atualizar e ser mais competitivo no mercado”. Se o governo local sobretaxa a importação eles ameaçam com contra-taxações, choramingam e reclamam.

Coisa parecida aconteceu quando as montadoras de automóveis, lá pelos anos 70 e 80, se tocaram que era mais barato fazer carro fora dos EUA e zarparam. Não tinham como competir com as empresas japonesas que estavam arrasando com o mercado. O movimento acabou gerando ações de marketing do tipo “carro feito nos EUA” mas no meio tempo milhões de americanos ficaram sem emprego. Hoje o mercado americano tem carros da Ásia e Europa compedindo no mercado local.

Resumindo: bem-vindo ao mundo capitalista.


2004

Às vezes tento me consolar com o fato de que ano que vem haverá eleições nos EUA e que Bush pode sair. Mas pensando bem me toco que ele vai ser reeleito fácil.

Em primeiro lugar por não haver um democrata sequer levantando a voz contra Bush. Eles devem estar esperando o resultado do Iraque para dizer alguma coisa, mas a campanha militar tem que ser muito ruim para piorar a imagem de Bush. A campanha do Afeganistão mostrou que isso vai ser complicado — fora o fato de que Bin Laden não foi capturado (o que não pode ser feito com bombas e tanques) ela foi um sucesso num território que deu uma surra nos soviéticos, só para citar um exemplo.

Em segundo lugar Bush reacendeu um sentimento americano que vinha adormecido há algum tempo: o de que, afinal de contas, eles são os chefes do mundo e que já era hora de algum presidente ter peito para agir como tal perante o mundo que deve sua liberdade aos americanos. A fatia de americanos que pensa assim é pequena, mas é barulhenta. Por isso mesmo os democratas andam com o rabo dentro: é anti-americano falar mal de Bush. Ele quer o melhor para seu país e isso até nós que estamos de fora concordamos. É no “doa a quem doer” que está o problema.

Que venha 2008, então.


É guerra

Bush dirá hoje em discurso que Saddam deve deixar Iraque ou enfrentar guerra

Bom, eu sempre achei que era só uma questão de tempo. Eu não tenho fé suficiente na raça humana para achar que não haveria guerra. E, até o momento, estou certo em pensar assim. É claro que não ajuda o fato de o Saddam realmente ser um grande FDP, o que dá ao “eixo do bem” várias desculpas esfarrapadas para atacar. Mas alguns minutos estudando história ensinam para qualquer um que guerra é sempre por causa de dinheiro.

Eu só tinha esperanças que a guerra começasse depois de eu sair daqui.

A guerra, todo mundo sabe, não é simplesmente sobre o Iraque. É sobre o poder total e irrestrito que os EUA têm sobre o mundo. É sobre a arrogância com que o presidente Bush tem lidado com outros países, só se dirigindo a eles quando lhe interessa.

É basicamente sobre isso que trata este ótimo artigo da Newsweek. O anti-americanismo mundial tem várias origens, mas a mais importante é que Bush e seus colegas de Casa Branca são péssimos diplomatas. Ele é o presidente que menos viajou ao exterior nos últimos 40 anos e seu vice só deixou o país uma vez desde que tomou posse. Nós brasileiros sabemos bem o que é isso, quando Washington enviou o “sub do sub” para aquela que talvez foi a posse presidencial mais importante da história recente do Brasil. Como bem lembra a Newsweek o ex-presidente Clinton não foi à ONU pedir autorização para começar a Guerra do Kosovo, mas recebeu apoio mundial na ação militar. George Bush ontem declarou para quem quisesse ouvir que ele foi à ONU 4 meses atrás pedir para atacar o Iraque mas que agora não está nem aí para o que decidirem.

Enquanto isso a mídia americana deixa seu povo mais ignorante sobre o cenário mundial, no melhor estilo W.Bush. É mais fácil chamar os franceses de ingratos do que entender que o buraco é mais embaixo. Mas isso nós já sabemos, não preciso ficar me repetindo aqui.

Que venha a guerra então e que comece a nova ordem mundial.


Estado policial

Eu tento ficar um dia sem falar mal do governo Bush mas não dá.

Estudantes secundaristas protestam contra a guerra em São Francisco e acabam algemados pela polícia. [ via BoingBoing ]

Aproveita e lê o texto do Amaral sobre como anda pesado o ar em NYC. [ via TopLinks ]


A mania de falar mal da França

Por favor, mande este texto para algum amigo americano ou publique no seu blog em inglês caso você tenha um.

To be sure, France owed America a nice thank-you card for D-Day. But we owe them a more. Without France, the United States wouldn’t even exist–it would still be a British colony.

Every American schoolchild learns that a French naval blockade trapped Cornwallis’ forces at Yorktown, bringing the American revolution to its victorious conclusion. But fewer people are aware that King Louis XVI spent so much money on arms shipments to American rebels that he bankrupted the royal treasury, plunged his nation into depression and unleashed a political upheaval that ultimately resulted in the end of the monarchy. Franklin Roosevelt wrote some fat checks to save France; Louis gave up his and his wife’s heads.

(…)

How many Americans remember that the Statue of Liberty was a gift from French schoolchildren?

(…)

French-bashing is a nasty symptom of an underlying American predilection for anti-intellectualism: a society whose most popular TV show features smoky chatter between poets and novelists naturally threatens the land of football and Pabst.

Não que vá adiantar muito, é claro.


Americanos procuram notícias em sites estrangeiros

A palhaçada se-você-é-contra-a-guerra-você-não-é-americano nos sites de notícias dos EUA está tão grande que muitos estadunidenses estão procurando sites estrangeiros, como a BBC, para ler notícias sobre a crise mundial.

The American public is apparently turning away from the mostly US-centric American media in search of unbiased reporting and other points of views. Much of the US media’s reaction to France and Germany’s intransigence on the Iraqi war issue has verged on the xenophobic, even in the so-called ‘respectable’ press. Some reporting has verged on the hysterical - one US news web site, NewsMax.com, recently captioned a photograph of young German anti-war protesters as “Hitler’s children”.

Parece que o NYTimes é o único indo contra a maré, publicando opiniões de todos os lados da história como um bom e imparcial jornal deveria ser. Destaque para o ex-presidente, ganhador do Prêmio Nobel da paz e sósia do meu tio Luiz, Jimmy Carter, opinando que atacar o Iraque é estupidez.

[ via Blogdex ]


A coletiva

Pontos interessante da coletiva:

P: Milhões de pessoas ao redor do mundo protestaram contra a guerra e vêem o senhor e os EUA como uma ameaça à paz tão grande quanto Saddam. O que o senhor acha disso?

R: Eu fico feliz em ver que essas pessoas vivem em um país que permite a liberdade de opinião e expressão. Eu já vi muitos protestos, entre eles contra o livre comércio das nações. Mas infelizmente eu discordo da opinião deles e vou atacar se for necessário.

P: “Vitória” nessa provável guerra significa a captura de Saddam vivo ou morto?

R: Nós vamos mudar o regime do Iraque para o bem do povo iraquiano. O Iraque será uma federação democrática e essa liberdade irá se propagar pelo oriente médio.

P: Mas o senhor não respondeu se a vitória será a captura de Saddam.

R: Nós vamos mudar o regime no Iraque.

P: E a Coréia do Norte?

R: A Coréia do Norte é um problema local. É um problema da China, Japão, Coréia do Sul e Rússia. Eu espero que estes países chamem para si a responsabilidade para a resolução desse problema.

P: O senhor acha que se os EUA forem à guerra sem uma autorização da ONU tal medida será vista como um desrespeito à ONU?

R: Eu não preciso da autorização de ninguém para ir à guerra. Eu quero ver a ONU funcionando bem, eu ajudo e troco idéias, eu fui lá falar mal do Iraque ano passado. Mas para proteger o povo americano eu não preciso da autorização de ninguém.

P: Na guerra do Vietnã o governo deu como justificativa que o regime local ameaçava a paz do povo americano. Milhares de vidas americanas foram perdidas, o regime comunista permaneceu e trinta anos após não houve um ataque sequer vindo do Vietnã. Que garantia o senhor dá às famílias de militares que o mesmo não vai acontecer?

R: [Dane-se a resposta, essa pergunta matou a pau.]

Fora isso repita “armas de destruição em massa” 136 vezes, repita que Saddam atacou seu próprio povo 39 vezes e fale como se a culpa dos ataques de 11-set fosse do Iraque e não do Bin Laden, que ninguém sabe onde está.

Enquanto isso na MTV européia o Primeiro Ministro britânico Tony Blair deu uma entrevista para jovens de vários países onde falou que a idéia de que a guerra contra o Iraque é por causa do interesse de EUA e GB no petróleo local é uma “conspiração”. Mas quando perguntado sobre o porquê de outros países serem contra a guerra Blair foi enfático: eles têm vários interesses em empresas petrolíferas na área.


No, he isn’t

A Luciana tem sempre colocado no blog dela dicas sobre “o inglês que não aprendemos na escola”. Palavras e expressões que são corretas mas que, na prática, ninguém usa como por exemplo chamar supermercado de supermarket. É correto, mas todo mundo chama é de grocery mesmo, inclusive como verbo. Vou ao supermercado vira I’ll do some grocery.

Agora há pouco atendi o telefone e a pessoa do outro lado procurava meu chefe. Perguntou se ele estava no escritório. A resposta-padrão-que-aprendemos-no-cursinho é he isn’t, certo? Só que a resposta que você ouviria aqui é: he’s not. Não é muito mais fácil falar he’s not do que he isn’t? ri-i-zân-t contra ris-nót, principalmente quando você pode falar duas palavras sem precisar de uma pausa entre elas. Em inglês “dia-a-dia” tudo sempre tem que ser da forma mais curta e rápida possível.

O mesmo acontece com can’t. O som é tão parecido com can que se você falar he can’t na hora a pessoa vai perguntar se você disse can ou can’t. Talvez na inflexão de quem cresceu falando inglês seja possível falar can e can’t com clareza suficiente, mas nós aliens vamos de cannot mesmo que é mais seguro. ;-)


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