— Não vou sair de casa hoje. Está aqui na Bíblia… Gênesis… Então, no sétimo dia da Criação, Deus olhou que tinha feito e viu que era bom. Ele, então, decidiu nem tirar o pijama. Ficou no sofá vendo reprise de filme e jogando videogame. Assim todos nós devemos consagrar o domingo não só como o Dia do Senhor, mas como o Dia do Pijama.
— Que Bíblia é essa?
— É uma versão apócrifa que eu tenho aqui.
— Amém.
O nome dos personagens foi mudado para manter o anonimato e a privacidade dos envolvidos.
Era manhã, mas nem tão cedo assim, e Cristiano dormia na casa dos Dias. O telefone na cabeceira toca. Nosso herói estica o braço e atende ainda atordoado.
— Aaaalou.
— Por favor o Eduardo? — responde uma voz feminina do outro lado.
— Não é daqui não.
— OK, desculpe.
Mal o telefone encosta no gancho toca novamente.
— Aaaalou.
Bruscamente a ligação é interrompida. Bateram o telefone na cara do já acordado Cristiano.
Mais uma vez o telefone toca milésimos de segundo depois. Cris, essa pessoa tolerante, deixa o telefone tocar. É quando tem uma idéia e pega o telefone.
— Aaaalou.
— Oi — a mesma voz de antes responde — aí é 2222-1212?
— Não. É 2222-2121.
— Poxa, mas eu estou ligando para 2222-1212 e sempre cai aí!
— Não… você está sempre apertando o botão rediscar do seu telefone. Enquanto você fizer isso a ligação vai sempre cair aqui.
Inexplicavelmente o telefone é batido na sua cara mais uma vez, mas não volta mais a tocar.
— Caramba, a gente é anti-social mesmo hein?
— Por quê? Que dizer… eu sei que a gente é anti-social mesmo, mas o que aconteceu dessa vez que te deu essa certeza?
— E aí, pensou num nome pra empresa?
— Pensei nesse aqui…
— Poxa, mas em inglês?
— É que senão não passa credibilidade.
O pior é que o marketeiro tem lá sua razão. Brasileiro se amarra em produto com nome gringo, mesmo que a empresa seja de fundo de quintal.
— De onde você baixa “coisas” na Internet?
— Basicamente eu pego músicas com o SoulSeek, arquivos pequenos com o KaZaA e arquivos grandes com a Mula.
— E filme de sacanagem, de onde você baixa?
— Ih, cara… eu praticamente não baixo filme de sacanagem da Internet.
— Ah é… você tem uma namorada maneira. Esqueci.
— Poizé.
— Sabe o que eu li no jornal? Que o George Michael parou de fazer a barba pra estar com aquela “cara de dois dias” na hora do show! Uau!
— Esse cara é viado.
— Ah, vocês homens são todos iguais! É só aparecer um cara bonito que faz as mulheres suspirarem pra chamar de viado. Isso é coisa de quem não se garante.
— É viado.
— Grosso. Invejoso.
— Bom dia!
— Bom dia…
— Está um belo dia lá fora.
— Legal, mas você pode me fazer um favor? Pode me dizer o que está escrito naquele papelzinho ali na porta?
— Hmmm… está escrito não perturbe.
— Então o que você está fazendo aqui, falando comigo?
— Mas eu não estou perturbando! Eu tenho algo muito importante a dizer!
— Sei… eu achei que quem deveria julgar o que me incomoda ou não devia ser eu mesmo. Tem certeza que o que você tem a me dizer é importante mesmo?
— Bom… eu acho que pode esperar algumas horinhas… Mas e se esse papelzinho nunca sair da sua porta?
— Então eu morri aqui dentro. Venha quando o cheiro estiver forte.
— Grosso…
— Por que você está triste assim?
— Não tô triste não.
— Então o que você tem?
— Sei lá. Tédio. Preguicite. Aliás, preguicite é a inflamação da preguiça?
— É isso ou Preg City, a cidade do prégui.
— Posso blogar isso?
— Ô Maria, vou imprimir um negócio. Tá com papel aí?
— Tô.
— Ué, mas tá dando erro.
— A impressora tá sem papel.
— Mas eu não perguntei se tinha papel?
— Eu tenho papel aqui na mesa, a impressora não.
— Mais um helicoptero americano/britânico caiu por problemas mecânicos. Parece que um míssil iraquiano acertou o rotor e ele “parou de funcionar”.
— Porra, mas que helicóptero vagabundo !
— Se juntar os paises que são contra, será que não da pra derrubar os EUA não? Eles estão tão fortes assim, que nem se juntar o resto eles não caem?
— Não. O gasto com “defesa” dos EUA é maior do que o de todos os outros países do mundo juntos. (sim, todos os outros 191) Ainda assim este gasto é só 4% do PIB americano, um percentual baixo para os padrões mundiais. [ fonte ]
— Eu sou contra esse lance de direitos autorais sobre livros e outras peças “artísticas”.
— Mas e o autor? Como ele vai viver?
— Eu acho que dá pra você ganhar dinheiro com produtos e serviços derivados do livro que escreveu. Merchandising.
— Merchandising em livro?
— É… o livro mais famoso do mundo é de domínio público e mesmo assim há toda uma indústria de serviços e merchandising ao seu redor. Gera bilhões por ano. A empresa que detinha os direitos autorais liberou o uso, adaptação e tradução e continua no mercado há mais de mil anos. Já comprou até seu próprio país. Duvido que eles conseguiriam ter o livro mais famoso do mundo mantendo controle autoral restrito em cima.
— Ahn?
— A Bíblia, cara… a Bíblia… Já pensou se a Igreja processasse Gutemberg por pirataria quando ele usou a primeira impressora do mundo pra publicar a Bíblia?
— Não sei se foi de propósito mas seus dois últimos posts começam com: “O tempo passa…” o que diria o seu psiquiatra disso?
— Quando é que esse cara vai aprender a mandar as coisas num formato decente que eu não precise perder horas reformatando?
— Quando você começar a cobrar por hora trabalhada e não um preço fixo por projeto. As pessoas só aprendem assim: quando dói em algum lugar. Nesse caso onde mais dói: no bolso.
— Sabe que não é uma má idéia?