Feliz ano novo

Alguns povos antigos dividiam o ano em 12 meses de 30 dias cada. Como ficavam sobrando 5 dias para fechar as contas estes dias eram “de mês nenhum”, numa festa de fim de ano que acontecia em épocas diferentes de acordo com a cultura. Em muitos lugares do hemisfério norte a data era próxima da noite mais longa do ano, o solstício de inverno, que por lá cai dia 21 de dezembro. Era um sinal de renovação e recomeço. “Daqui para frente tudo melhora”. Aí vieram os romanos, os papas e o calendário começou a tomar essa forma que conhecemos hoje. O ano novo é dia primeiro de janeiro porque ele tem que ser em algum dia, ora bolas. Alguém baixou um decreto dizendo que assim deve ser.

A relação com o carnaval brasileiro é óbvia. Aqui o carnaval, data móvel, acaba informalmente marcando o fim do verão, a volta às aulas e, portanto, a volta das férias. Eu já falei aqui no blog em 2003 sobre esse papo de falar mal dessa característica do calendário brasileiro. Americanos (que normalmente só têm 2 semanas de férias e muitas vezes espalham os dias pelo ano todo) também adoram tirar férias no verão.

Nosso calendário é ótimo, concentra a maioria das férias em 2 meses do calendário permitindo uma organização maior dos trabalhos nos outros 10 e permitindo um período de arrumação e reorganização (nem que seja mental) de quem trabalha. Foi o que eu fiz aqui.

Hoje, então, é o último dia do festival de ano novo, o dia da ressaca. Um feliz e próspero 2008 para todos nós.


O Efeito Sabichão

Dia desses esbarrei com esse artigo legal da Wikipédia: estudos que mostrariam a tendência das pessoas em se acharem mais espertas do que a maioria dos ursos, incluindo aqueles que passaram anos especializando-se no assunto em questão. O Efeito Dunning-Kruger. “Na hora eu me viro bem, pode deixar”.

Os pesquisadores Justin Kruger e David Dunning propõe que dada uma habilidade que qualquer pessoa possa dominar mais ou menos:

1. Pessoas incompetentes tendem a superestimar suas habilidades;
2. Pessoas incompetentes não conseguem identificar habilidade de verdade em outras pessoas;
3. Pessoas incompetentes não conseguem reconhecer o quanto são inaptos; e
4. Se forem treinadas para melhorar suas habilidades elas conseguem se tocar da sua falta de habilidade anterior.

No outro extremo, pessoas devidamente qualificadas tendem a subestimar seus próprios poderes.

O trabalho de Kruger e Dunning no tema ganhou o IgNobel de 2000.


Politicamente incorreto

Er… tipo assim… Levar porrada dos delinqüentes imbecis filhinhos-de-papai vai acabar virando a melhor coisa que aconteceu na vida da Sirley?

E outra: se algum deles fosse menor de idade estaríamos ouvindo todos os papos sobre diminuição da maioridade legal de novo?

Este momento “general de pijama” é um oferecimento…


Quadrinhos de auto-ajuda?

xkcd é uma tira de quadrinhos conhecida por suas piadas com altos graus de nerdosidade e seus desenhos toscos. Mas essa semana a história deu uma guinada existencial, com uma mensagem daquelas que parece que foi escrita para mim. Foi?

Trecho da tirinha de quadrinhos xkcd

Comece a série por aqui.


Tudo que eu sei na vida aprendi vendo séries de TV

– Você é feliz Nathan?

– Não exatamente. Acho que tenho alguns assuntos me atormentando.

– Oh não! Sinto muito por ouvir isso

– Eu acho que chega a hora em que o homem precisa se perguntar se ele quer uma vida de felicidade ou uma vida com significado.

– Eu quero ter os dois.

– Impossível. São caminhos muito distintos. Para ser feliz, o homem precisa viver completamente no presente. Nenhum pensamento no que aconteceu e nem no que vai acontecer. Mas, para ter uma vida com significado o homem precisa apodrecer no passado e ser obcecado pelo futuro.

      Mr. Linderman e Nathan Petrelli, tradução 9th Wonders


Barbárie e indignação no RJ

Eu meio que decidi que não falar nada sobre o crime do menino arrastado por 7km por bandidos no Rio, principalmente em nome da minha nova fase zen. Acho graça quando esses crimes trazem de volta o papo de acabar ou reduzir a maioridade legal. É como se todos os pivetes, ao completar 18 anos, fossem procurar um emprego. “Droga… acabou a moleza.” Ou como se todos os envolvidos no caso fosse di menor! (só um acusado é)

Mas aí sou chamado de “papo de sociólogo que acha que pobre é lindo”. Aparentemente esse é o tipo de assunto onde as pessoas já têm opinião formada, cristalizada e pronto. Qualquer papo vira bate-boca sem fim.

Então achei essa série de textos do Alex Castro que encaixa certinho no que eu acredito ser exatamente o problema. Lê lá e vai encher o saco dele e não o meu se discordar.


Você é sua rua

Uma das minhas máximas profundas que adoro dizer por aí é que o trânsito é um micro-cosmo capaz de dar uma boa idéia de como um lugar funciona. Em países mais educados as pessoas respeitam faixa de pedestre e sinal vermelho mesmo que não haja ninguém por perto, entre outros motivos porque elas podem parar num sinal vermelho de madrugada em segurança. Já aqui perto de casa os carrões decidem quando parar no sinal vermelho. A lei é para os outros. Kombis (peruas, em paulistês) nunca respeitam nada. Mas o micro-cosmo também vale para como os pedestres e oficiais do trânsito se comportam.

Ontem minha mãe mandou este vídeo com 1 minuto num cruzamento movimentado no Iraque, que ajuda bem a reforçar essa minha teoria.


Referências virtuais

Calvin e Haroldo

– Já notou quantas conversas giram em torno de programas de TV e filmes? Nossas referências em comum são eventos que nunca aconteceram e pessoas que nunca vamos conhecer! Nós sabemos mais sobre celebridades e personagens fictícios do que sobre nossos próprios vizinhos!

Essa tirinha de “hoje” do Calvin é exatamente uma das minhas piadas favoritas hoje em dia. Cada vez mais baseamos nossas vidas e valores em cima de coisas que não só não existem, mas foram cuidadosamente escritas e calculadas por escritores tarimbados. Passamos a esperar que a vida comporte-se como nossa série ou novela favorita.

– Caramba, eu não sei como esse cara conseguiu ficar casado com essa mulher tantos anos.

– Oh, eu sei…

– Como?

– Eles não são de verdade! São personagens de uma série!!!

Ou a minha favorita do ano:

– Ah é, tem gente que gosta mais do bicho do que de gente. Não vê aquela mulher da novela?

The Boondocks

E como a cada seis meses trocam-se as novelas mas os arquétipos continuam os mesmos as pessoas começam a acreditar que a vida deve ser daquele jeito. Que se um cara é rico e bem-sucedido ele deve ser, lá no fundo, infeliz e corno. Que uma menina rica e bonita só pode ser uma megera. Que todo pobre é feliz na sua pobreza-com-originalidade. E que toda Helena é uma lutadora.


Qual seu signo?

Qual seu signo[bb]? Aposto que qualquer pessoa hoje no Brasil (e na maioria do mundo ocidental) é capaz de responder essa pergunta instantaneamente. Eu sou Peixes. Não faço muita idéia do que isso signifique, mas sei que sou.

— Aaaah, você é Peixes. Mas é claro! Não podia ser outra coisa!

Não sei meu ascendente[bb], mas uma parcela razoável das pessoas sabe até isso. Mas agora…

Qual seu tipo sanguíneo[bb]?

Terceira e última pergunta do questionário:

Qual destas duas informações você realmente acha mais importante para a sua vida?

— Socorro, fui atropelado por um carro! Doutor, eu sou Peixes, rápido!

Pergunte por aí qual o signo e tipo sanguíneo[bb] das pessoas e veja não só que a maioria não sabe seu sangue como ainda vai fazer uma cara de “por que você acha que eu saberia meu tipo sanguíneo?”. Também conhecida como mas hein?.

E, a propósito, eu sou O+.



Eu também sei fazer chavão

Só existem dois tipos de pessoa no mundo: as que falam o que pensam e as que só pensam.

Ou seja… no fundo, no fundo só existe um tipo de pessoa no mundo. Nós é que achamos que são dois.


OM

Blessings of the state, blessings of the masses. Let us be thankful we have commerce. Buy more. Buy more now. Buy. And be happy.

Amém.


Rinha no galo dos outros é refresco

Era para esse texto ser mais elaborado. Como não foi vou acabar sendo mal-interpretado. Mas tudo bem, lá vai…

Existe uma diferença de crueldade assim tão grande entre participar de rinhas de galo e comer um frango de padaria? Nos dois casos uma criatura galinácia foi gerada e preparada para o seu efêmero prazer que culmina com a morte da mesma. E se você acha que o frango que você come, que morreu para você comer leva uma vida legal, na fazendinha verdejante ou no Sítio do Pica-Pau Amarelo você vive num mundinho muito mais cor-de-rosa do que o real.

Então vamos ficar um pouquinho menos chocados, OK?


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Segunda-feira já é um dia tradicionalmente agitado, especialmente quando você passou a semana na estrada e, sob risco de repetir a dose nessa semana, tenta resolver o maior número de pendências por minuto. Uma coisa meio D’Artagnan que marca duelo para as 10:00, 11:00 e meio-dia na confiança de que vai sobreviver a cada um — e no meu caso, sobreviver dentro do prazo.

Mas o pensamento-randômico que passou pela minha cabeça hoje foi “as coisas vão realmente mal quando você se pega várias vezes pensando em escrever um livro de auto-ajuda”. Alguém me salva…

E para fechar: como bem disse o [cc] o novo disco do R.E.M. é coisa da melhor qualidade.


Brasil o país da vela? (ou: momento Lya Luft)

Estou aqui o dia todo tentando rabiscar alguma coisa sobre a vitória do Robert Scheidt. Dizer que a única coisa que eu consigo pensar quando vejo que o cara já ganhou três medalhas olímpicas, todos os campeonatos mundiais desse ano e tem a minha idade é

“E eu aqui descascando batata no porão.”

Aí vem a história da Daiane e seu quinto lugar com um monte de gente caindo de pau (resistindo à tentação de dizer “todo mundo caindo de pau”).

Colega… ela errou feio e é a quinta melhor ginasta do mundo. E você? Não… na boa, o que você é? Não vale dizer que não teve chance, que não nasceu Scheidt, que está mais para Dos Santos. Você tem a vida que tem por livre escolha sua. Dizer que fulano não ajudou, que não teve berço, que não teve escola, que ganhou a Barbie Malibu quando queria era a Barbie Bailarina é tirar o seu da reta e continuar na reta de deixar tudo como está. Você está aqui porque, de uma maneira ou de outra, escolheu estar aqui. Isso, claro, também vale para mim, daí a “revolta” original do texto.

Uns escolhem ser medalhista. Outros escolhem meter o malho no Brasileirinho dos outros.


Símbolo != todo

Pensando sobre toda essa história do governo Lula — da “tentação autoritária” de que fala a capa da Veja — encontro um texto que vem ao encontro de várias coisas que venho formulando quietinho na cachola.

Desde que me entendo por gente o conceito de governo — não só no Brasil, mas é aqui que eu vivo e conheço — anda meio diferente do meu. (daí você começa a entender que eu só comecei a me entender por gente assim dizendo de uns poucos tempos para cá)

O ensaio fala sobre como vivemos em um mundo onde as pessoas confundem o símbolo com a coisa que ele representa. Sobre como de repente um carro deixa de ser aquele objeto que nos leva do ponto A ao ponto B e passa a ser um estilo de vida, uma força de auto-afirmação. Como compramos jipes que consomem 100 litros por quilômetro não por precisarmos atravessar lama e rios para chegar ao trabalho todo dia. Mas porque eu posso. O consumismo é só isso, é comprar uma coisa não pelo “valor agregado”, ou seja, não pelo que aquilo vai me trazer objetivamente mas pelo efeito causado.

Lá pelo natal de 1998 (chute) pedi de presente a caixa com os três VHSs da trilogia Star Wars. Em outubro sai a mesma trilogia em DVD e provavelmente vou comprá-la na semana do lançamento. Nestes 6 anos que tive os VHS em meu poder devo ter visto os filmes uma vez cada. Eu não comprei quatro horas e meia de filme: eu comprei uma caixa que simboliza um filme do qual me considero fã. Eu comprei o direito de dizer “eu tenho, você não te-em”.

E o que o governo tem com isso?

É outro item mencionado pelo texto. Como aquilo que surgiu como uma maneira de pessoas diferentes atingirem um objetivo em comum (ordem, comércio organizado, ruas limpas) se tornou uma entidade autônoma e normalmente contrária àquilo que a originou. Governo.

Hoje o que mais ouvimos falar é que “o povo tem que entender que o governo isso e aquilo”, que o governo deve preservado, que o governo não pode abrir mão…

Caso clássico sempre citado aqui é a CPMF. O imposto era provisório mas depois de uns anos o governo avisa que, afinal de contas, já conta com esse dinheiro no seu orçamento e não pode abrir mão da receita. A gente que se vire para pagar a conta.

Até então esse governo-coisa ficava a maior parte do tempo na esfera econômica. Agora, com o governo Lula e seus amigos ex-comunas-mas-não-tão-ex-assim o governo-criatura vai ganhando tronco e membros. Esse é o tal sinal da tentação autoritária. O governo aparece como uma entidade superior (em vários sentidos) que deve ser preservado. Falar mal do governo é sinal de que estamos tomando ações para derrubá-lo, praticamente um mau-agouro. Daí surgem medidas (ou, esperamos todos, apenas idéias de medidas) com o objetivo de que ninguém fique sabendo dos problemas do governo. “Confiem em nós… aqui só tem gente bem-intencionada que quer o melhor para o país.” Parece que não é só o céu que anda cheio de gente bem-intencionada, Brasília também vai bem.

Senhores governantes (de qualquer mandato e em qualquer nível da federação): quem deve ser preservado sou eu e os outros cidadãos, não o “governo”. O Governo (vamos usar maiúsculas?) não é uma pessoa, um rei, um deus, uma inteligência superior. O governo é a forma que escolhemos de manter as coisas em ordem. Uma outra opção seria “no tapa”.

Com essa história toda de criar um órgão para regulamentar e “ficar de olho” na impresa — que surge na semana onde mais um escândalo é revelado pela malvada imprensa — o governo mexeu com quem não devia. Eu já vi presidente ser derrubado na TV por muito menos. Infelizmente vivemos em um país onde esse papo de separação dos três poderes é meio lenda… mas espero que o Congresso não deixe isso ir muito longe.

Na reportagem-descendo-o-cacete da Veja e suas declarações do rodapé a que eu achei mais importante foi, quem diria, a do Faustão.

O risco, a meu ver, é essa esquerda acabar fortalecendo a direita radical.

Já andei falando disso aqui em algum lugar… A democracia no Brasil é forte o suficiente para impedir que cambemos para uma ditadura de esquerda (EUA à parte). Só que se o governo Lula não convencer (e anda fazendo justamente o contrário) vamos passar umas boas décadas sem um outro governo de esquerda no Planalto. E essa história a gente já conhece.


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