Livros são livros, filmes são filmes e você, sempre que possível, deve ler o livro depois de ver o filme. Como sou notoriamente fã do gênero fantasia tirei o atraso de meses sem ir ao cinema com A Bússola de Ouro na literalmente última sessão de cinema do ano.
O filme foi alvo de críticas por parte de grupos religiosos o que foi, ora bolas, mais do que motivo suficiente para me convencer a vê-lo. Mas chegado ao shopping fui avisado de que a maior crítica do filme em relação ao livro é a de que ele tinha, justamente, bundamolizado o tom da crítica. Resultado final: filme bem sem-gracinha mas com uma direção de arte poderosa o suficiente para me deixar cheio de vontade de ler o livro. O universo paralelo de Philip Pullman
era rico demais para ficar num filmezinho que provavelmente nem continuação vai ter.
Prontamente roubei o presente de Natal do cunhadão e comecei uma alucinada corrida contra o tempo para acabar as 365 páginas antes que o dono do livro voltasse a São Paulo. Fracassei com umas oito horas de atraso mas comecei o ano emplacando bem a meta de “ler de montão”.
Dizer que o livro é melhor do que o filme é ser obviamente óbvio, mas justamente por causa da tal direção de arte um complementou o outro muito bem. Mas o livro é melhor do que o filme não só pelos motivos de sempre (mais detalhes nas cenas e personagens, bla bla bla) mas por causa dos tais pequenos detalhes. Em primeiro lugar, a cena final do livro foi excluída do filme. Reza a lenda que chegou a ser filmada mas os produtores acharam a cena muito sinistra e resolveram deixar para a improvável parte 2. As duas cenas finais restantes tiveram a ordem invertida no filme, deixando um ligeiro aroma de “isso não faz muito sentido, mas vamos lá” no ar. O problema é que a tal cena final é de um impacto muito maior do que a cena final do filme. O filme termina com “vamos salvar titio” e o livro termina, exagerando, em “vamos salvar o universo”. Só que como o livro termina para baixo os produtores ficaram com medinho e resolveram deixar a parte triste de fora, bem ao estilo Mãe da Phoebe. Mas todo mundo sabe que a vida é uma seqüência de finais tristes.
Lendo nas entrelinhas do IMDB fica bem claro que a produtora, New Line, foi a grande responsável pela trapalhada do filme. Além do medinho acima ficou também se borrando de medo das organizações religiosas que acusavam o filme de super-ateu-anti-religioso
. O livro pega bem leve na questão religiosa até justamente a cena final, onde Tio Asriel explica sua interpretação do que é o maldito Pó (quem vê só o filme vai ter que ficar imaginando por conta própria) e explica o papel da igreja na história toda. A New Line, portanto, mandou os diretores e roteiristas envolvidos no projeto (teve diretor pedindo as contas por não aguentar mais a pressão da New Line) passarem longe de questões filosófico-religiosas. Resultado: os zelotas continuaram não indo ver o filme-do-capeta e os fãs da série ficaram ofendidos, não dando repercussão ao filme da maneira que a outra produção de sucesso da New Line, O Senhor dos Anéis
, teve, justamente por ser o mais fiel ao livro que um filme pode ser. O filme acabou custando US$ 180 milhões (contra US$ 280 milhões dos três Senhores juntos) e muito provavelmente vai fechar no prejuízo, torcendo para ganhar algum no lançamento em DVD.
Então se você não achou graça no filme ou ouviu alguém dizer que ele não tem graça não perca as esperanças: a trilogia literária vale com certeza a leitura. Já estou aqui me coçando para ler o segundo e terceiro livros da série.