O Brasil e a correria que mata

São Paulo é uma cidade doente. Uma cidade onde cenas como essa são corriqueiras. Onde as pessoas começam as conversas falando da “correria”. Onde se vive uma grande ilusão coletiva de auto-importância, onde o agora não basta, é tudo para ontem, todo mundo é importante e precisa resolver alguma coisa com urgência.
Fabio Yabu, clique e leia

Todos os dias, indo e vindo do trabalho, eu passo por essa esquina aqui:

Eu vou andando pela Manoel da Nóbrega e preciso atravessar a Al. Santos. Tem milhares de esquinas assim pelo mundo. Os carros na Manoel podem entrar à direita na Santos (a maioria faz essa curva) mas há uma faixa de pedestres bem ali. Portanto se eu atravesso na faixa os carros tem que parar e me deixar passar. Só que, como já disse aquele famoso filósofo, o Anônimo, o Brasil é o país da frase “tomara que essa lei pegue”. Onde uma lei ser seguida ou não é só opcional e a tal da voz do povo pode arrumar argumentos para seguir ou não a lei. Nesse caso o argumento é “Se eu for deixar todo pedestre passar eu não saio do lugar”.

Nessa esquina eu já fui quase atropelado, xingado, buzinado e, quando estava dirigindo no mesmo lugar e deixando um pedestre passar, buzinado e xingado por quem vinha atrás. Porque as pessoas em seus carros não podem parar, os pedestres que parem, que deem a volta, que se explodam. Eu, que prefiro estar vivo do que com a razão, opto por dar a volta e cruzar no sinal, à esquerda, mesmo que depois tenha que atravessar a rua de novo para pegar o metrô na Paulista.

Longe de mim querer defender o estilo de vida americano, mas vou me permitir cair no clichê de citar “a América”, como eles dizem lá na América. Passei 10 dias em Austin e chegava a ser incômodo para minha mente já paulistana como o pedestre é respeitado em todos os cantos sem questionamento. Os moradores indo trabalhar e o trânsito parado porque 65 mil pessoas estavam andando a pé para lá e para cá para ver suas palestras. Só que o trânsito parava, amigão. Eu mesmo parei num sinal com a mesma configuração desse da Al. Santos (todo mundo querendo entrar para a direita) e em mais de uma ocasião os carros simplesmente não andaram entre o “abrir” e fechar do sinal de carros porque algumas dezenas de pessoas estavam atravessando. Se você quis vir de carro o problema é seu.

Eu falo de São Paulo porque é aqui que eu moro e aqui que passei a virar pedestre e usuário de transporte público. Minha (falta de) fé no brasileiro me diz que no país todo é assim. Eu sei que no Rio a coisa muitas vezes é pior, já que os motoristas se agridem uns aos outros, mas pelo menos o número de motoqueiros é menor o suficiente para que a batalha campal que acontece em São Paulo quase não exista. Motoqueiros paulistas, aliás, que acham que a linha tracejada nas ruas da cidade significa “pista expressa para motos em qualquer situação”. Quando o governo ameaçou fazer valer a lei de que motos só podem trafegar nessa faixa quando os carros estão parados os motoqueiros (motoboys profissionais e motoqueiros que usam a moto para ir e vir do trabalho) alegaram que isso não podia acontecer porque “aí não vale a pena ter uma moto”. Como se a lei e a ordem servissem para isso, para que seu estilo de vida valha, não importando o resto.

Desde pequeno ouvi a história de que “seu direito acaba onde começa o meu”. Isso, portanto, significa que “meu direito acaba onde começa o seu”. Só que esses 10 dias no Texas — no Texas, cara! Aquele lugar onde a gente acha que as pessoas andam armadas e se matando — confirmei com meus olhos e minha pele que o Brasil é o lugar onde esta afirmação não é verdadeira. Cada um que cuide do seu espaço. Isso vale não só para o trânsito. O brasileiro é um povo espalhado, como a gente costumava dizer lá no Rio. É só você ir em espaços públicos com lugares para sentar, aeroportos ou praças de alimentação por exemplo, para ver pessoas em pé e bolsas ocupando cadeiras. Porque afinal de contas minha bolsa é mais importante que você — eu cheguei primeiro e peguei lugar, então espere na fila. O Brasil podia tranquilamente alterar o Código de Trânsito para os seguintes termos:

No cruzamento a preferência é do carro maior. Em caso de carros do mesmo tamanho o mais caro tem a preferência.

Em local de estacionamento proibido se o motorista ligar o pisca-alerta e for ali rapidinho resolver um problema o estacionamento passa a ser permitido.

Para o brasileiro as leis não existem para tornar a vida de todo mundo melhor. Elas existem “pra me fuder” ou “pra alguém se dar bem com isso”. A culpa não é do sistema, não é do Kassab, do Eduardo Paes, da Dilma, do Lula, do FHC ou do Obama. Não é nem dos ricos com seus carrões. A culpa é nossa. O trânsito é uma merda porque preferimos dormir 15 minutos a mais do que pegar um ônibus que — ó não! — pode nem ter lugar sentado. A culpa é do ritmo de vida que nos impomos e nos orgulhamos. “Tá foda, cara. Maior correria.” é algo que nos orgulhamos em dizer para os amigos. Não podemos ficar 15 minutos esperando uma mesa em um restaurante, não podemos dar 1 semana de prazo para nosso fornecedor. Tudo é para ontem, mas tudo deve ter a qualidade de anos de preparo.

Trabalhar até mais tarde em São Paulo é regra. A Anna sempre conta de quando trabalhava em uma empreiteira na Zona Sul e quando dava o “fim” do expediente, 18h, ela era a única a se levantar — precisava pegar a Clarinha na escola — e via os colegas de trabalho virarem os olhinhos. Desculpa, galera, nem em NYC e Londres, capitais mundiais do capitalismo, isso rola. Aqui rola o pensamento de que se eu não trabalhar 12 horas por dia o patrão vai arrumar alguém que tope. E quer saber? Ele vai conseguir mesmo. Não é uma questão de “não quer brincar muda pro meio do mato” porque trabalhar até tarde é só parte do problema. A coisa chegou num ponto onde estamos literalmente nos matando nas ruas, ou arrancando braços e fugindo.

Nos matamos, nos agredimos e no fim das contas pra quê? No fim do dia você correu, buzinou, quase atropelou 20 pessoas e fez o quê? Qual coisa tão importante assim você fez e deixou para o futuro? Espero que sua resposta tenha valido todo esse sangue.

62 thoughts on “O Brasil e a correria que mata

  1. Sempre que a gente volta de um lugar civilizado é esta a nossa impressão sobre o Brasil. Dá vontade de sacudir todo mundo para ver se eles acordam para a civilização. Vamos acreditar que um dia vai mudar.

  2. uma boa reflexão que explica um pouco o motivo de tanta notícia insólita esses meses. deixo aqui uma pergunta: "a culpa é nossa" mas o que nos leva a ser assim?

  3. Nem no Brasil todo e assim… Aqui em Petropolisos carros param para os pedestres e para os outros carros diariamente. Quando tem um que nao para, pode olhar que a placa nao e daqui… Mas Petrópolis e "mato" né? Comparado com SP… Mas pelo menos nem em todos os cantos do Brasil perdemos totalmente a percepção do outro…

  4. é por isso que quando decidi ser pai mudei meu estilo de vida. trabalhei 2 anos pra poder viver do que ganho na internet e viver de home office. hoje dirijo o mínimo possível. também saio menos e procuro horários com menos trânsito. me irritava demais ser totalmente correto no trânsito e ser vítima de pré-assassinos diariamente. ia acabar morrendo um dia numa discussão.

  5. De fato, o melhor texto que já li sobre o trânsito no Brasil. E ele é igualmente válido para Fortaleza. Exemplificando: tem uma escola no caminho do trabalho pra casa, e toda vez que paro na faixa de pedestres para algum aluno atravessar os carros atrás de mim começam a buzinar.

  6. "A culpa é nossa. O trânsito é uma merda porque preferimos dormir 15 minutos a mais do que pegar um ônibus que — ó não! — pode nem ter lugar sentado. A culpa é do ritmo de vida que nos impomos e nos orgulhamos."

  7. Aqui em Curitiba a regra é assim: quando o pedestre põe o pé na rua pra tentar atravessar, os motoristas aceleram ainda mais o carro, tipo cheguei primeiro e você que espere pra pegar seu ônibus que tá vindo ali, mesmo que o próximo só venha daqui 40 minutos. Aí quando aparece uma alma caridosa (educada pra ser mais correto) que para pra você passar, muitos ficam na dúvida se é gentileza mesmo, ou se o motorista tá esperando você por o pé na rua pra passar por cima e mostrar seu poder no volante. Na dúvida, muitos pedestres acenam pro carro continuar e optam por se manterem vivas.

  8. Eu sou de Austin. Austin é melhor de São Paulo com respeito à educação no trânsito, sim. Mas, eu deveria dizer que é melhor que o resto de Texas também.

  9. "Para o brasileiro as leis não existem para tornar a vida de todo mundo melhor. Elas existem “pra me fuder” ou “pra alguém se dar bem com isso”. A culpa não é do sistema, não é do Kassab, do Eduardo Paes, da Dilma, do Lula, do FHC ou do Obama. Não é nem dos ricos com seus carrões. A culpa é nossa. O trânsito é uma merda porque preferimos dormir 15 minutos a mais do que pegar um ônibus que — ó não! — pode nem ter lugar sentado. A culpa é do ritmo de vida que nos impomos e nos orgulhamos. “Tá foda, cara. Maior correria.” é algo que nos orgulhamos em dizer para os amigos. Não podemos ficar 15 minutos esperando uma mesa em um restaurante, não podemos dar 1 semana de prazo para nosso fornecedor. Tudo é para ontem, mas tudo deve ter a qualidade de anos de preparo."

  10. "Para o brasileiro as leis não existem para tornar a vida de todo mundo melhor. Elas existem “pra me fuder” ou “pra alguém se dar bem com isso”. A culpa não é do sistema, não é do Kassab, do Eduardo Paes, da Dilma, do Lula, do FHC ou do Obama. Não é nem dos ricos com seus carrões. A culpa é nossa. O trânsito é uma merda porque preferimos dormir 15 minutos a mais do que pegar um ônibus que — ó não! — pode nem ter lugar sentado. A culpa é do ritmo de vida que nos impomos e nos orgulhamos. “Tá foda, cara. Maior correria.” é algo que nos orgulhamos em dizer para os amigos. Não podemos ficar 15 minutos esperando uma mesa em um restaurante, não podemos dar 1 semana de prazo para nosso fornecedor. Tudo é para ontem, mas tudo deve ter a qualidade de anos de preparo."

  11. Belo texto. Já passei por essa indignação antes, inclusive no ano passado estive fazendo um curso em SP e percebi como as coisas pioraram muito em nome da ilusão da produtividade. Mas não é só quem dirige não que vive nessa armadilha, achei impossível caminhar normalmente nos túneis do metrô sem ser "acidentalmente" esbarrado por um paulistano com pressa e presenciei a cena absurda de um engravatado xingar uma senhora de idade que "atrapalhava" sua passagem na escada rolante. Felizmente o Rio me possibilita viver sem ter carro, mas como bem disse o povo faz sua parte para perturbar a harmônia de quem não quer entrar nesse bate-bate cosmopolitano. O problema mesmo é a "falta"… de respeito no trânsito, de educação, de honestidade, de profissionalismo, etc etc etc. E ainda questiona-se o porquê do Brasil não ser um país de primeiro mundo.

  12. Belo texto. Já passei por essa indignação antes, inclusive no ano passado estive fazendo um curso em SP e percebi como as coisas pioraram muito em nome da ilusão da produtividade. Mas não é só quem dirige não que vive nessa armadilha, achei impossível caminhar normalmente nos túneis do metrô sem ser "acidentalmente" esbarrado por um paulistano com pressa e presenciei a cena absurda de um engravatado xingar uma senhora de idade que "atrapalhava" sua passagem na escada rolante. Felizmente o Rio me possibilita viver sem ter carro, mas como bem disse o povo faz sua parte para perturbar a harmônia de quem não quer entrar nesse bate-bate cosmopolitano. O problema mesmo é a "falta"… de respeito no trânsito, de educação, de honestidade, de profissionalismo, etc etc etc. E ainda questiona-se o porquê do Brasil não ser um país de primeiro mundo.

  13. Como um coelho branco sempre atrasado ao ser confrontado admite: "eu sou uma fraude".
    Muitas das pessoas que conheci em São Paulo quando perguntadas sobre a razão da pressa não sabiam responder. Estão com pressa pois assim é São Paulo.
    Estão mais preocupadas em parecer sempre com pressa…

  14. belo texto. passo por uma situação complicada, com quase 25 anos, nunca dirigi na vida e sou obrigado a ter que entender todos os dias os motivos que levam alguém a buzinar, brigar no trânsito, ultrapassar de forma perigosa, não respeitar semáforo, sinalização, pedestre etc, etc, etc, etc.

  15. Essas esquinas que cruzamos todos os dias, na interseção entre o público e o privado, forças estranhas que se entrelaçam, alimentadas pelo nosso sangue e suor. Forças a empurrar, centrifugar, espremer e despejar para todos os lados. Que fazem subir a feia fumaça a apagar as estrelas. Como domá-las, domesticá-las, catequizá-las, e, um dia talvez, civilizá-las? Um bom começao é compreender a origem da borracha e do asfalto, das escolhas políticas feitas pelas gerações anteriores e da falta de debate ou discurso utópico da nossa. Para que as próxmias não precisem repetir os nossos desabafos quando chegar seu dia de atravessar a rua.

  16. " Nos matamos, nos agredimos e no fim das contas pra quê? No fim do dia você correu, buzinou, quase atropelou 20 pessoas e fez o quê? Qual coisa tão importante assim você fez e deixou para o futuro? Espero que sua resposta tenha valido todo esse sangue."

  17. Aqui em Brasilia. Parei o carro para uma pessoa passar na faixa e fomos arremessados quase 20 metros por uma Toyota que vinha a alta velocidade (pois a condutora estava com pressa). Ao sair (ninguém se feriu pois estava de cinto), a senhora além de dizer que estava em alta velocidade, não tinha visto o pedestre, nem que nós tinhamos parado porque….pasme…estava respondendo uma mensagem de texto de uma amiga no celular.

    Sorte o pedestre não atravessou. E que ela teve o bom senso em pagar pelos estragos no nosso carro sem nem pedirmos.

    Espero que ela pare de ver mensagens de texto no celular enquanto dirige. Mas não tenho muito esperança.

  18. O texto é muito! Porém acho que todos que aqui estão lendo e comentando são educados a ponto de respeitar a lei, me pergunto se quem deveria ler irá lê-lo?!

    Temos um número muito grande de "pessoas que compram carta" e isso para mim é o começo da grande questão se a lei "pega" ou não…

    O Buraco é mais … enfim.

  19. gostei dessa: "Eu, que prefiro estar vivo do que com a razão,…" 😛 muito bom texto….é disso que eu vivo falando pras minhas amigas que trabalham 15h por dia e recebem 300 emails. no rio de janeiro é status falar que estar na correria. aqui, se vc tem um emprego normal de 6h ou 8h por dia (além de não pagar as contas, pq não paga mesmo, tem que ter 3 empregos desse) você também é visto como vagabundo.

  20. Pelo menos em São Paulo, quando você dá seta para trocar de faixa alguem abre o espaço… aqui em palmas, se fudeu, vai ter que dar uma volta… e se você botar o braço pra fora para sinalizar, provavelmente você fica sem braço…. Isso entre motoristas de carro… O povo fica o tempo todo naquele rítimo de "buscando a mãe na zona"…

  21. Sinal dos tempos, do progresso, mas, principalmente, da mentalidade do brasileiro que insiste em não querer mudar.

  22. "Para o brasileiro as leis não existem para tornar a vida de todo mundo melhor. Elas existem “pra me fuder” ou “pra alguém se dar bem com isso”. A culpa não é do sistema, não é do Kassab, do Eduardo Paes, da Dilma, do Lula, do FHC ou do Obama. Não é nem dos ricos com seus carrões. A culpa é nossa."

    LEIAM

  23. Quantas gerações ainda vão ser necessárias para que o brasileiro abra os olhos?

  24. É isso. E quem pega transporte público todo dia, tá igual, é sempre "eu primeiro" mesmo que, para isso, você impeça os outros de seguirem seu caminho. Essa lei do "cheguei primeiro" já pegou – e é uma daquelas que não deveria pegar. O negócio é sair mais cedo, é respirar fundo e esperar que a postura das pessoas mude – o que eu duvido que aconteça – mas, pelo menos, mudando a minha não me sinto assim, um monstro egoísta que faz de tudo para chegar primeiro, sentar primeiro, comer primeiro, etc..

  25. BR né maluco… tensão total… eu não aguento mais a cidade de SP e estou de mudança para uma cidade do interior.. gostaria muito de arrumar um emprego por lá, pra ganhar menos.. mas viver bem.. viver com minha familia, sem perder 2 horas no transporte publico ou ter que andar de moto pra ganhar 60 minutos 🙁

    A situação de SP é irreversível, temos muito que agradecer aos povos de outros estados, mas infelizmente a situação nas grandes cidades está assim pq eles dizem "cara na minha cidade não tinha emprego, aqui tem e eu me mato mesmo, melhor ter um trocado do que passar fome" e eu concordo com eles nesse contexto não tem como discordar.

  26. BR né maluco… tensão total… eu não aguento mais a cidade de SP e estou de mudança para uma cidade do interior.. gostaria muito de arrumar um emprego por lá, pra ganhar menos.. mas viver bem.. viver com minha familia, sem perder 2 horas no transporte publico ou ter que andar de moto pra ganhar 60 minutos 🙁

    A situação de SP é irreversível, temos muito que agradecer aos povos de outros estados, mas infelizmente a situação nas grandes cidades está assim pq eles dizem "cara na minha cidade não tinha emprego, aqui tem e eu me mato mesmo, melhor ter um trocado do que passar fome" e eu concordo com eles nesse contexto não tem como discordar.

  27. Texto excelente! Me pergunto isso – "no fim das contas pra quê?" – todos os dias ao observar compostura de pedestres, motoristas e a minha, claro.

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