Palpites sobre o lance de limpar seu banheiro para abrir sem medo um Mac Book no ônibus

O curioso é que aqueles brasileiros que queixam-se amargamente de limpar o próprio banheiro, elogiam incansavelmente a possibilidade de andar à noite sem medo pelas ruas, sem enxergar a relação entre as duas coisas. Violência social não é fruto de pobreza. Violência social é fruto de desigualdade social. A sociedade holandesa é relativamente pacífica não porque é rica, não porque é “primeiro mundo”, não porque os holandeses tenham alguma superioridade moral, cultural ou genética sobre os brasileiros, mas porque a sociedade deles tem pouca desigualdade. Há uma relação direta entre a classe média holandesa limpar seu próprio banheiro e poder abrir um Mac Book de 1400 euros no ônibus sem medo.

Da relação direta entre ter de limpar seu banheiro você mesmo e poder abrir sem medo um Mac Book no ônibus (clique e leia!)

Ano passado ficamos sem empregada e falei pra mim mesmo. “Acabou. Chegou a hora, não vamos conseguir encontrar outra e vou ter que limpar chão e banheiro.” Não tenho nada contra essas tarefas, fora da preguiça e de preferir gastar esse tempo salvando o universo de alguma ameaça gigante no videogame. Afinal de contas sou um cara movido a prioridades.

No fim conseguimos a empregada, ela vai todos os dias, tratamos e pagamos ela bem mas eu concordo que é louco esse pessoal que acha que o Brasil um dia vai virar primeiro mundo mas continuaremos tendo empregadas que fazem tudo durante o dia (ao contrário de cozinheiras, lavadeiras, etc.) e babás-vestidas-de-branco cuidando de seus lindos filhos. Essas pessoas não querem que o Brasil vire primeiro mundo. Elas querem que elas virem primeiro mundo. A conta não fecha, galera.

21 thoughts on “Palpites sobre o lance de limpar seu banheiro para abrir sem medo um Mac Book no ônibus

  1. “Essas pessoas não querem que o Brasil vire primeiro mundo. Elas querem que elas virem primeiro mundo.” Foi um pensamento que nunca tive sobre a questão, e que achei totalmente pertinente. É o egoísmo de pensar em viver em uma “bolha protetora”, de onde se vê tudo lindo, onde tudo serve bem.

  2. oi CrisDias. eu não tinha lido o artigo, nem sabia que existia pois chegou aqui apenas a frase em 140 caracteres. eu entendi que não se trata de ter ou não empregada, mas sobre dar valor as coisas e ao trabalho.

  3. Fala Cris. Eu sou o autor do texto. Legal que você curtiu, valeu.

    O mais irônico das pessoas que querem ser primeiro mundo tendo empregada e baba é que elas não percebem que no primeiro mundo, as pessoas *não* tem empregada nem baba. Pais rico não quer dizer que todo mundo é rico. Poucas pessoas são ricas, mas também poucas pessoas são pobres. Todos se encontram no meio, mas isso no Brasil significaria que muita gente teria de *descer* pra s encontrar no meio e isso, isso muita gente não quer – ou seja, muita gente (quem tem grana) não quer que o Brasil seja de primeiro mundo.

    Abraço

  4. Engraçado que eu nunca pensei nisso dessa forma. Já estive nos dois pólos: Já fui diarista e já fui contratante, e te digo que nunca analisei o meu pensar nas duas realidades, e é totalmente verdade. Quando a gente tá por cima, tá sempre querendo que tenha alguém por baixo pra limpar nossa sujeira, porque não temos tempo pra nada, e quando estamos por baixo, desejamos imensamente alguém que precise da gente porque a gente tem pouco tempo também, mas temos menos dinheiro ainda, rs! Adorei a reflexão!

Comments are closed.