Estamos em crise porque estamos em crise

Ontem fui almoçar com a elite da internet carioca (OK, com o Fabio e o Beto) no Botafogo Escada Shopping e a pergunta-piada do encontro foi: que crise? Shopping cheio, pessoas nas lojas e o Emporio Pax, restaurante não necessariamente popular, com todas as mesas ocupadas. (a vista ajuda, claro) Nas lojas os estoques andam baixos porque os compradores, adotando a estratégia “estamos em crise”, baixaram o ritmo de compras mas os consumidores não.

Fico, então, me perguntando se não estamos em crise só porque alguém gritou “Estamos em crise! Fujam para as montanhas!!!” A bolha do subprime já tinha sido cantada em 2004 e 2005, com o aumento gritante do endividamento dos americanos. A crise oficialmente começou em 2007 e só quem não se preparou realmente quebrou a cara no fim de 2008. Eu fico cada vez mais com a impressão de que, além dos simplesmente despreparados, muita gente simplesmente usou a crise como desculpa perfeita para mandar gente embora e cortar o orçamento em geral. E como desculpa para pedir tutu para o Tio Sam, claro.

No Brasil o maior impacto foi em empresas enormes, muito dependentes da economia americanas ou em empresas com muitos custos em dólar (…como a minha). Só que nem mesmo os economistas entenderam direito porque o dólar continua tão alto assim, sugerindo um forte fator psicológico. (se bem que essa semana já deu uma acalmada, finalmente) Ou como disse o Michel no almoço do Intercon: “metade da população brasileira não tem nem conta corrente, como é que uma crise financeira vai mudar os hábitos de consumo tão drasticamente assim?” Não mudou tanto assim até agora.

A teoria do Alexandre parece ser a válida: estamos em pânico porque nos mandaram entrar em pânico, porque é isso que vende jornais, dá poder a políticos, executivos e economistas. E exatamente por isso também não devemos ficar acreditando que a crise acabou (ou nem existiu) só porque escrevem isso em um blog.



:: Escrito por Cristiano Dias, dia 9 Jan 2009, 11:48, em Ca-ching!.

15 Comentários

  1. Neto

    Cris,
    Eu sou um puta pessimista.
    Então vamos lá:
    No começo achei que a crise era só balela, exagero para vender jornais.
    Mas com o tempo, fui percebendo que não é não.
    E quando a crise pega em grandes empresas (que não é meu caso) afeta toda a cadeia de produção que presta serviços para essas empresas (que é meu caso).
    Essa é a primeira grande crise “globalizada” e “blogada” da história.
    Por isso, ao contrário das outras, ficamos sabendo com muita antecedência que ela viria.
    Aí, como está demorando pra chegar à ponta do consumo, a gente começa a achar que não vai acontecer.
    É como se tivéssemos equipamentos mais modernos para prever terremotos. Agora sabemos que ele vem muito antes da casa cair. Dá pra se preparar, mas não dá para evitar.
    Gente com sacola em shopping ainda pode existir, felizmente.
    Esforços de todo lado para conter o impacto, ótimo.
    Mas o terremoto vai chegar.
    O fato é que, por anos, a economia mais forte do mundo cavou um buraco fundo e dizia para que o buraco estava cheio com dinheiro.
    Como o buraco estava cheio é de ar, um dia a conta chegou.
    Falando com um amigo do mercado financeiro de NY, ouvi isso:
    “Quem mais se beneficiou com a crise, foram os EUA, porque mostraram que ainda são a economia mais forte do mundo, com o fluxo de grana que ocorreu do mundo pra eles.”
    Quando eu pedi pra ele explicar melhor, ele disse:
    “Um buraco desses é como um furo numa comporta de uma represa. O dinheiro vai fluir do lado cheio para o lado vazio, até que a represa se nivele num nível médio”
    O dólar está alto porque ele foi embora do país, para ajudar a cobrir o buraco que o monte de tragédias financeiras recentes causaram nos EUA, na Europa, no Japão.
    Simples assim.
    Ano passado 48 bilhões de dólares voltaram para os Estados Unidos. Ou 25% de nossas reservas.
    Além de elevar o valor do dólar para quem quer comprá-lo aqui, isso é dinheiro que saiu do nosso mercado de crédito.
    Menos crédito, menos investimento.
    Menos investimento, mais demissões, pouco importa se o infeliz tem ou não conta no banco na hora que estiver desempregado.
    Quanto mais o tempo passa, quanto mais escuto dos clientes, quanto mais leio a respeito, mais acredito que existe, sim, exagero para vender jornal. Mas que a crise vem, ah isso vem.
    abcs

    9 Jan 2009, 13:29, via Mozilla Firefox Mozilla Firefox 3.0.5 no Mac OS Mac OS X
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  2. larry

    na boa, querer medir a crise pelo movimento do shopping é jogo duro (e algo assim meio bundinha)

    9 Jan 2009, 16:24, via Mozilla Firefox Mozilla Firefox 3.0.5 no Ubuntu Linux Ubuntu Linux
    IP: 143.106.140.19
  3. Alexandre

    Bom, eu não disse que não tem crise. Até porque nem tenho categoria pra dizer “há” e muito menos “não há”. O que eu disse é que tem um efeito de eco e pânico em alguns segmentos da mídia, a minha área, que amplifica a crise em vez de ajudar a debelar. E, pior, tem um monte de espertalhões, como o NYT mostra, que pinta um cenário de desastre e se aproveita de situação.

    9 Jan 2009, 16:35, via Mozilla Firefox Mozilla Firefox 3.0.5 no Mac OS Mac OS X
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  4. Blumerangue » Que crise? | 2008 tem aumento no e-commerce e promete mais em 2009

    [...] havia acabado de ler um texto no blog do Cris Dias que falava sobre a tal da “Crise”. Então, será que existe mesmo esse [...]

    9 Jan 2009, 17:41, via WordPress WordPress 2.7
    IP: 200.234.200.158
  5. Raphael Perret

    Pra mim, a crise ainda vai chegar assim. As economias estão cada vez mais interdependentes, e é impossível que não haja uma conseqüência por aqui. Quer dizer, já têm rolado algumas, como as demissões em multinacionais (mas são multinacionais, exatamente aquelas que estão mais expostas à turbulência lá de fora). Nada, porém, justifica o clima aterrorizante criado pela imprensa. Eu, pelo menos, não conheço ninguém e sequer ouvi falar de alguém (por meus contatos) que tenha sido atingido pela crise, isto é, sofrido demissão. Também acho que a crise é pretexto pra demitir gente, assim como é pretexto pros empresários rapidinho pedirem ao governo a flexibilização das regras da CLT…

    10 Jan 2009, 21:00, via Google Chrome Google Chrome 1.0.154.36 no Windows Windows XP
    IP: 201.29.221.75
  6. Raphael Perret

    Corrigindo, “ainda vai chegar SIM”.

    10 Jan 2009, 21:00, via Google Chrome Google Chrome 1.0.154.36 no Windows Windows XP
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  7. Samuca Dantas

    Bom, eu trabalho numa agência, em Natal/RN. Ou seja, uma empresa nada megalomaníca. Temos um cliente do setor imobiliário que foi atingido pela crise e tivemos 9 baixas entre demissões e desligamentos na empresa.

    Pode ser pouco para grandes empresas, mas para nós foi quase 1/3 da empresa.

    Bom, se uma pequena agência em Natal sentiu a crise, é porque ela existe.

    This is my theory!

    “Sinto, logo existo”
    Crise Financeira

    12 Jan 2009, 09:53, via Mozilla Firefox Mozilla Firefox 3.0.5 no Mac OS Mac OS X
    IP: 189.124.144.7
  8. Marcelo Carvalho

    Interessante o texto…a crise de fato existe, mas a atitude de cada um e das empresas pode fazer a diferença. Escrevi um texto e passei para meu pessoal, antes do final do ano.

    http://marcelopcarvalho.wordpress.com/2009/01/11/aproveite-a-crise/

    Acho que vale a pena se inspirar na frase do Sam Walton: “Me perguntaram o que eu achava da recessão. Pensei a respeito e decidi não participar”.

    Parabéns pelo blog, abs!

    Marcelo

    12 Jan 2009, 13:06, via Internet Explorer Internet Explorer 7.0 no Windows Windows Vista
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  9. MaGioZal

    Os fatos são os seguintes: devido ao próprio contexto da situação mundial atual, essa crise está afetando muito mais os EUA, a Europa Ocidental e os Petro-países que estão economicamente vinculados ao Primeiro Mundo.

    Países como o Brasil já não são mais umbilicalmente dependentes do que acontece na economia acima da linha do Equador, como era até os anos 80, quando os governos brasileiros iam de pires na mão até o FMI pedir dinheiro.

    O crescimento e sucesso recentes da economia brasileira não não se baseia nas classes mais abastadas A e B (como foi na época do “milagre brasileiro” da ditadura militar), aquelas que dependem mais de produtos e serviços vinculados à economia do Primeiro Mundo; ela se baseia na economia do povão, da multidão que invadiu massivamente a 25 de Março aqui em Sampa no final do ano, daqueles que compram nas lojas de R$1,99, daqueles que compram parcelado móveis nas Casas Bahia, naqueles cuja renda depende mais dos reajustes do salário mínimo do que nas variações das blue chips das bolsas de valores. O povão do Brasil que está sustendando o crescimento da economia não costuma viajar ao exterior, não troca de carro todo ano (isso quando tem carro), não tem carteira de investimentos, e a base principal dasquilo que consome é feita no Brasil.

    Por causa de tudo isso, digo que ainda não sinto a crise nas ruas. Situação aliás bem diferente do que aconteceu nos anos 90, quando eu vi nas rásdios e na TV que o Brasil estava vivendo momentos sensacionais na economia e tudo que eu via ao meu redor era pobreza, recessão e desemprego (morei na periferia da cidade de São Paulo entre 1989 e 2006, sei bem do que estou falando…).

    Claro que na “grande mídia” (revistas semanais, principais telejornais) a impressão que a gente tem é que a situação está muito pior e de que o Armagedon vem aí. Mas suspeito que isso esteja acontecendo porque o público-alvo dessas publicações ainda são as classes A e B, assim como os próprios jornalistas e publishers que comandam esta mídia toda estào longe de ser pobres…

    Bom, é essa a minha visão. Posso até me enganar no futuro, mas enfim… esta é a minha impressão em janeiro de 2009.

    Feliz Ano Novo!

    12 Jan 2009, 17:12, via Mozilla Firefox Mozilla Firefox 3.0.5 no Mac OS Mac OS X
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  10. MaGioZal

    Ah, sim, outro país em que o Armagedon ainda não chegou é a Indonésia: http://old.thejakartapost.com/detailheadlines.asp?fileid=20090112.A03&irec=2

    12 Jan 2009, 17:14, via Mozilla Firefox Mozilla Firefox 3.0.5 no Mac OS Mac OS X
    IP: 201.52.83.71
  11. Raphael Perret

    O MaGioZal disse:

    “Claro que na “grande mídia” (revistas semanais, principais telejornais) a impressão que a gente tem é que a situação está muito pior e de que o Armagedon vem aí. Mas suspeito que isso esteja acontecendo porque o público-alvo dessas publicações ainda são as classes A e B, assim como os próprios jornalistas e publishers que comandam esta mídia toda estào longe de ser pobres…”

    É isso aí mesmo. Escrevem como se o público fosse igual a eles. Mas também acho que há motivação ideológica nisso.

    12 Jan 2009, 17:18, via Internet Explorer Internet Explorer 6.0 no Windows Windows XP
    IP: 201.18.18.104
  12. Alex Frachetta

    Nessa hora se dá bem a empresa ou a pessoa que tiver dinheiro no bolso pra investir.
    Entrei na Bovespa em novembro e se eu resgatasse agora teria um lucro de 17%.

    Agora cabe uma frase que eu gosto muito do Warren Buffett: Uma regra simples dita minhas compras: seja prudente quando os outros são vorazes e seja voraz quando os outros são prudentes.

    13 Jan 2009, 00:10, via Mozilla Firefox Mozilla Firefox 3.0.5 no Windows Windows XP
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  13. Risque a crise e arrisque | CASA DO GALO - O animal da publicidade.

    [...] começou 2009 brincando com a palavra crise. Confesso que não me intimidei. Li um texto do Cris Dias e não quis mais ouvir sobre o assunto. Ele fez questão de dizer o que penso. E [...]

    22 Jan 2009, 07:44, via WordPress WordPress 2.7
    IP: 208.109.138.83
  14. Douglas Stange

    1. A bola já vinha sendo cantada desde 2004, 2005;
    2. Os efeitos só serão sentidos por aqui de agora, início de 2009 em diante. Talvéz não seja esse monstro de 21 cabeças que a impresna tenta vender (e creio que não será); porém, algum efeito será sentido por aqui. Isso ocorre porque o País acumulou “gordura” para ser queimada agora;
    3. Parece sim o pretexto perfeito para empresas cortarem gastos com mão de obra e forçar a flexibilização da CLT; mais um pepino para o governo. Haja bolsa-família, bolsa-esmola…

    29 Jan 2009, 18:26, via Internet Explorer Internet Explorer 7.0 no Windows Windows XP
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  15. Renato Coneglian

    A crise tão falada só existe para quem quer que ela exista.

    Não ESTAMOS em crise, sempre estivemos. A economia sempre foi desequilibrada. Dizer “estamos em crise!” é desculpa.

    Aristóteles disse uma vez:
    “Agora que já alcançamos alto nível de
    prosperidade material, é hora de nos dedicarmos
    ao espírito”.

    A sensação será sempre igual: nada mais é
    possível criar, inovar, inventar. Que produtos e serviços ainda não foram criados?

    Imagina se o homem realmente acreditasse nessa frase de Aristóteles? Estaríamos até hoje sem evoluções.

    É o que está acontecendo com a crise. Todo mundo está achando que estamos em crise, mas é uma simples etapa. Grandes empresas têm se unido, negociações nunca vistas estão sendo feitas, pessoas e empresas estão nadando em dinheiro, e as empresas não oportunistas estão de cara feia, com o dedo no umbigo, reclamando: “Estamos em crise”.

    20 Jun 2009, 02:44, via Mozilla Firefox Mozilla Firefox 3.0.11 no Windows Windows XP
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