Garrafamania: o marketing de vender algo que é de graça
Semana passada estava conversando com o pessoal no Twitter sobre o marketing da Red Bull, que vende bilhões com um produto de fórmula aberta que tantas outras empresas (incluindo a Coca Cola) copiam. Red Bull é puro marketing.
Mas há um marketing de bebida ainda mais impressionante: o de água. O NYTimes resenhou o livro “Bottlemania: How Water Went on Sale and Why We Bought It”, de Elizabeth Royte que tenta entender como americanos pagam por mais de 1 bilhão de garrafas d’água por semana quando poderiam simplesmente pegar a água de suas torneiras. (e muitas águas nem podem ser chamadas de “água mineral”, como é o caso dos produtos vendidos pela Coca Cola e Pepsi, que são apenas água filtrada e engarrafada)
Isso, para o bem ou para o mal, é o poder do marketing.
PS: Isso deveria ser discussão para outro texto, mas nas grandes capitais brasileiras a água da torneira também é potável, já que no máximo filtramos a água (retirando, portanto, só a sujeira) e não fervemos (matando os microorganismos). Mas adoramos contar como em nossa viagem a Orlando com a família bebemos água direto da torneira.
É como aquelas dondocas que comentam “Metrô? Ah, eu só pego quando vou a Nova York!”
Ora, mas a água da torneira de lá fala inglês… É aquela história de atribuição de status, plantada nas mais sutis cenas de filmes, quando um ator toma água da torneira do banheiro… Americanos sabem exportar sua cultura (ruim, mas cultura) muito bem. Agora porque eles caem nessas ciladas de marketing eu já não sei, vai ver não não tão mais espertos quanto o resto do mundo como pensam…
Putz, esculhambe minha carbon footprint, mas eu tou tomando agua mineral ultimamente. A agua de torneira do Rio, depois de filtrada, eh muito melhor do que a agua de torneira daqui de Londres, filtrada ou nao.
Ja ouvi os boatos mais loucos, de que a agua daqui tem hormonios, tem prozac (eh que a agua eh reciclada, e como todas as mulheres tomam pilula e um monte de gente toma antidepressivo, ja viu ne).
Sei que ela me faz reter liquido para caramba, eu fico inchadona.
Mas por que eu to falando tudo isso? Sei la, acho que quis so explicar que nem todo mundo que toda agua mineral (nao em refiro a engarrafada) faz isso por pura imbecicilidade. Como vc pode ver, existe um raciocinio por tras da minha imbecilidade…
Eu falei desse assunto num post de um ano atrás: http://www.alexmaron.com.br/2007/06/27/agua-agua-agua/
A reportagem que gerou meu post é da ótima Fast Company. É reveladora, inteligente e ilumina a questão.
Certas coisas a gente só percebe que é idiotice quando paramos para pensar. O lance de pagar pela água é complicado mesmo, por exemplo, na maioria dos shoppings do Rio de Janeiro, não existem bebedouros, então você tem que ir lá e comprar água, ou em boates também…
Agora em casa, a coisa muda de figura, né? Tenho notado um certo crescimento nesse mercado de bebedouros para casa, daqueles que você coloca um galão em cima, e as pessoas, ao invés de instalar um simples filtro, ficam comprando esses galões toda semana, como se aquela água fosse mais limpa… Vai entender, né?
Essa do sumiço dos bebedouros nos shoppings é uma velha bandeira minha. Ridículo. Água não é business, é condição básica para viver. Os bebedouros não podem sumir para ajudar os negócios das lojas.
Aqui onde eu moro, no interior do Zair… da Itália, a água é muito rica em calcário. MUI-TO. Do tipo se o seu chuveiro entupir é só desatarraxar e remover as PEDRAS que se formam dentro. Se você ferver água e depois deixar descansar fica uma camada branca cobrindo o fundo da panela. Não há nenhuma evidência de que esse conteúdo altíssimo de calcário faça mal à saúde, mas o lance é que é absolutamente imbebível. O gosto é horripilante! Pra não falar que o uso de filtros é impossível; entupiriam em cinco minutos.
Engraçado que muda muito de zona a zona do país: a água de Roma, por exemplo, é ótima aonde quer que você vá, e em algumas fontes ela já sai naturalmente com gás. Outras regiões também têm água perfeitamente bebível - veja que estou usando o termo “bebível” com o significado de “não tem gosto nem cheiro”; em Florença, por exemplo, a água da torneira é potável - limpa e tratada - mas imbebível, pelo cheiro e gosto fortíssimos de cloro. Aqui na Umbria, interiorzão, há zonas e zonas. Por exemplo, minha sogra tem um tanque de lavar roupa no quintal com uma torneira que puxa água de um poço artesiano. Quando almoçamos lá no domingo levamos sempre garrafas vazias pra encher. A oficina do meu marido fica em outro comune, a uns 15 minutos daqui, e a água já tem uma composição completamente diferente daquela da minha cidade. Ele também enche as garrafas de água lá na oficina (uma vez por ano mandamos analisar pra ver se tá tudo bem). Mas eu particularmente ainda acho que tem um gosto estranho, e às vezes compro mineral pra mim.
Morro de saudade da água do Rio, com aquele gosto de filtro de barro. Mas aqui infelizmente não rola.
pior do que comprar algo que já tem de graça, é comprar algo que te mata :p
–cigarro–
A água dos botijões azuis é água mineral, ou seja, fruto de lavra de mineração, algo muito controlado no Brasil. Especificamente, é água de lençóis subterrâneos de 200 ou 300 metros de profundidade, como o aqüífero Guarani, o maior lençol de água doce do mundo, que vai do Uruguai ao sul de Minas. É uma água sem microorganismos e com alguns minerais benéficos à saúde. No Rio Grande do Sul, algumas cidades, como Estrela, tiram sua água desse lençol. Recentemente eu tomei banho de chuveiro com água mineral porque o hotel em que me hospedei em Frederico Westphalen tem uma fonte própria nos fundos do prédio. Todas as torneiras têm água mineral.
Realmente tem águas e águas.
O José, aí em cima, fala de cidades no sul com água mineral encanada. Aí, quem precisa de filtro?
Agora, no Rio, por exemplo, a água vem do Rio Guandú, e não é nada boa pro consumo saindo da torneira. Sei porque já tentei ferver e ficou uma “camada suja” em cima. Daí, de duas uma: ou você compra um filtro muito potente (tipo o da Brastemp, que tem uma porrada de etapas de filtragem) ou compra água mineral. Bom, isso em casa, porque na rua… quem sabe de onde vem a água?