Grandes provedores nacionais continuam bloqueando o YouTube por conta do vídeo proibido da Cicarelli. O desembargador Ênio Santarelli Zuliani baixou ordem judicial semana passada para que somente o vídeo seja bloqueado. Pois justamente o YouTube alega que não tem como bloquear com eficácia um vídeo específico. O exercício é simples: pense em uma maneira de bloquear especificamente o vídeo e depois uma maneira de burlar esse bloqueio. Até quem não entende nada de informática vai encontrar respostas bem simples para o caso. O YouTube gostaria muito de ter como bloquear vídeos específicos por outros motivos, já que várias empresas estão processando o site por violação de direitos autorais. Mas um vídeo é uma informação visual e subjetiva, que até o momento só nossos cérebros conseguem entender ou distinguir. Qualquer vídeo denunciado ao administradores é retirado do ar rapidamente, mas nossa querida popstar não quer ter o trabalho de ficar policiando o site. Ela quer todos os vídeos fora e pronto.
Então se nem o YouTube consegue filtrar só um vídeo os provedores de acesso nacionais não têm lá muita opção senão bloquear o site todo. O desembargador, que obviamente não entende absolutamente nada de tecnologia, tira o seu da reta dizendo que a ordem é de bloqueio de um vídeo só, em todas as suas encarnações. Mas a ordem judicial é literal “objetivando o bloqueio do site www.youtube.com, da cor-ré YouTube Inc, aos Internautas brasileiros, informando, após, o Juízo, da providência tomada”. Nada é dito sobre algum vídeo específico.
É como mandar todas as bancas de jornais fechar porque a Caras publicou fotos da Cica pelada. É como mandar fechar todas as ruas porque alguém pode estar dirigindo bêbado.
Mas uma discussão maior começa a aparecer. Eu e você podemos achar que o vídeo não tem nada demais e ainda dá publicidade grátis para a menina. Afinal de contas ela foi filmada fazendo coisinha em lugar público, uma praia. Bloquear o site todo é burrice e ponto. Mas vai aparecer o dia em que um vídeo do YouTube, uma foto de um site, o texto de um blog… seja realmente ilegal. E mais: alguma coisa ilegal no Brasil porém legal nos EUA e o YouTube, por exemplo, decida que não vai tirar o vídeo.
A maior “quebra cultural” da internet é ela ser de alcance mundial e aplicação local. Nós ficamos revoltados quando os chineses bloqueiam acesso a sites que julgamos “democráticos” mas um dia a coisa pode voltar-se para o lado de cá. Os EUA, onde ficam os grandes sites, têm as leis mais liberais de liberdade de expressão do mundo. Lá é permitido ter site anti-semita, mas na Alemanha, por exemplo, não é. O que o governo alemão pode fazer quando (ainda no exemplo) aparecer um vídeo neo-nazista no YouTube?
Tentemos um exemplo mais complicado… Aqui no Brasil é terminantemente proibido vídeos com cenas de sexo com crianças, de qualquer espécie. Mas nos EUA há um detalhe: se alguém fizer um desenho animado de uma criança em cena de sexo ele pode ser publicado, porque na visão da lei americana o que deve ser protegido pela lei anti-pedofilia é a integridade física e mental da criança e não a moral de quem assiste ao vídeo. Se a criança em questão não existe, é um desenho, nada de errado aconteceu.
Sem tentar discutir a interpretação da lei americana… Digamos que um vídeo desse entrasse no YouTube? É um vídeo obviamente ilegal no Brasil, algo bem mais sério do que a Cicarelli gemendo dentro d’água. O bloqueio do site por completo seria justificado? Ou devemos contar com a boa vontade do site? O YouTube (que nem permite vídeos sobre sexo, é bom dizer) pode ser compreensivo mas nada garante que o vídeo não apareça no outro site de vídeo ali da esquina. O que os provedores deverão fazer? Começar a caçar cada site e cada endereço IP até desligar a Internet toda aos brasileiros?
A reposta para o problema de hoje é simples: deixem de besteira e abram o YouTube. O quarto site mais acessado do mundo não pode ser bloqueado por inteiro aos brasileiros por conta dos caprichos de uma apresentadora de terceiro escalão. Mas a confusão está só começando.
PS: Aceito exemplos melhores para este texto, já que o meu da pedofilia, pelo visto, é furado.