PQP PCC
É claro que não falei nada sobre o “caos de São Paulo”. Eu sou um preguiçoso, ultra-atolado, perfeccionista safado que quer sempre escrever o texto perfeito sobre o assunto. E aí nunca escrevo nada. Assim sendo vou safadamente copiar e colar o final do texto do Flávio Gomes*, indicado pelo Lavi:
O problema do Brasil é sua gente que não sabe cuidar da sua gente. É meu vizinho que acha um absurdo o que eu pago para minha empregada “porque inflaciona o mercado”. É meu amigo que tem firma registrada em outra cidade para pagar menos ISS e reclama do buraco que quebrou a roda de seu carro blindado. É o palhaço que vai para Miami e acha aquilo tudo muito civilizado porque todo mundo pára no sinal vermelho e na placa de stop, e respeita a faixa de pedestres e não joga nada pela janela do carro porque é tudo muito civilizado, e aqui faz tudo ao contrário. É o cara que trafega pelo acostamento na estrada. É o cara que dá dinheiro para o guarda não multá-lo. É o cara que paga para zerarem os pontos de sua carteira. É o cara que acha um absurdo ter radar para pegar seu excesso de velocidade. É o cara que mora em São Paulo e anda com carro emplacado em Curitiba ou em Palmas. É o cara que coloca engate no carro para bater no carro de trás. É o cara que cafunga toneladas de pó por semana e se indigna com o moleque que rouba seu relógio na esquina para cafungar igual. É o cara que compra uma Hilux, esconde na fazenda e diz para o seguro que roubaram. É o médico que pergunta com recibo ou sem recibo? É o cara que faz tudo isso e acha execráveis os políticos que fazem o que eles fariam, e só não fazem porque não conseguiram ser políticos.O problema do Brasil somos nós.
Desde os ataques de 11 de setembro eu meio que repito que é fácil e automático dizermos que os EUA mereciam tudo isso por estarem “arrochando” os países pobres o século 20 todo. Mas quando é aqui no nosso quintal chamamos todo mundo de vagabundo ladrão e achamos sensacional a polícia dizer que “vão morrer pelo menos 15 por dia”, como se fosse cota de venda. “Alguém tem que fazer alguma coisa, senão o morro vai descer.”
* Copiar final de texto é o ápice da sacanagem, né? O cara perde o maior tempão construindo o raciocínio e a gente coloca só o final.
O lance do “merecemos” é complicado.
Merecemos mesmo, mas quem é ô “merecemos” ?
Nós os comuns/normais/sociedade civil/povão ou os filhos da puta que governam o país ( e aqui complica tudo pq “nós” os colocamos lá ) ?
Desta vez os ataques foram direcionados. Atacaram a polícia militar, civil e até os bombeiros.
Da próxima vez…serão os políticos :-).
Gostei muito do texto do Flávio Gomes, penso muito parecido com ele e muitas vezes adoto uma postura um pouco agressiva sempre que ouço alguém reclamando de algo. Tento mostrar esses milhares de pequenos defeitos que temos como pessoas e fala que o resultado do que vivemos é o reflexo de como agimos.
O maior problema do Brasil é não sermos uma sociedade, somos apenas um aglomerado de pessoas. Não precisa nem ser grande pensador para notar isso, é só ler a definição de sociedade em algum mini-dicionário. Um pedacinho: “Organização dinâmica de indivíduos autoconscientes e que compartilham objetivos comuns e são, assim, capazes de ação conjugada”.
Fora o hexa, não estou lembrando de nenhum outro objetivo comum dos brasileiros. É uma pena.
Basta ficar fora do Brasil por um tempo para vermos como não existe uma “nação” aqui. É realmente, como disse o Vinícius, uma aglomerado de pessoas. Todos com objetivos individuais, quase nunca incluem o coletivo. Talvez nem seja consciente, é parte da cultura local mesmo. É o salve-se quem puder.
Não sei se concordo com essa idéia à la Sartre de que o Inferno são os outros. O Brasil é uma país fracassado porque o povo fracassa como povo. Não é culpa dessa ou daquela classe somente. O fulaninho no Senado recebe cachê pra mudar de voto e o outro passa troco errado na bodega. Aí vem mais um e não diz nada por que “não é com ele”. É fácil e rápido dizer que culpa é desse grupo ou daquele, mas isso não ajuda muito se você não faz nada, só reclama. E “fazer alguma coisa” pode ser algo muito simples. Não precisa ser uma revolução armada. Pode ser um blog que explique a diferença entre o voto nulo e o branco, pode ser um panfleto que ensine que não se deve jogar lixo na rua e as consequências disso, pode ser um texto como o do post.
Sem essa de esperar que político resolva algo por você. Resolva você mesmo.
Sempre tenho a impressão que cada uma das milhões de pessoas ao meu redor só pensa nela. E por isso fura a fila, pára o carro na rua para conversar, acha que o sinal de trânsito serve para os outros e “não para mim”.
Mas isso não é um problema familiar? Não foram todos criados assim, roubando o brinquedo do irmão mais novo e se achando malandro? Quando eu era pequena, me achavam um ser muito estranho porque nunca peguei dinheiro na carteira dos meus pais.
Se um indivíduo, quando criança, não respeita o dinheiro dos pais (dos pais!!), é demais querer que ele, depois de crescido, pense no desconhecido do carro ao lado, né?
Então acho que o buraco é bem mais embaixo, e que essa discussão tinha que ir para onde tudo começa. Para a casa de cada um. Ter princípios é coisa que se aprende desde pequeno.
O discurso é válido, desde que não sirva para mascarar a ineficiência do Estado. É comum que um governante, pressionado, diga que “o problema é da sociedade”, porque aí será de todos e, em última análise, de ninguém. O Lembo fez isso em SP.
A cada eleição, é insuportável ver aquela gente com ar pueril e inocência estudantil a fazer campanha pelo “voto consciente”. Nada contra, mas entramos nessa, fazemos uma “grande festa cívica” e voltamos para nossas casas com a sensação de dever cumprido. Como se votar fosse o suficiente! Depois, nos omitimos e passamos 4 anos alienados, aceitando que nossos representantes façam o que querem. Nós os encontramos na rua e não cobramos explicações. O maior defeito de nós, brasileiros, é a omissão e a passividade.
Aceitamos tudo. Até que um governante encurralado diga que o problema não é dele: é “da sociedade”.