O meio

Outro dia estava no ônibus ouvindo o podcast Twit especial sobre os 30 anos da Apple. E fiquei… sei lá, maravilhado e triste ao mesmo tempo em pensar que aquilo, aquela “efervescência de inteligência” que rolou no Vale do Silício 30 anos atrás e continua rolando a cada 10 ou 15 anos… que isso nunca vai rolar no Rio ou no Brasil da maneira que nossas cabeças funcionam.

É o sempre citado caso de que se não fosse Florença no século XIV não existiria Renascimento. Michelangelo era detalhe, podia ter sido qualquer um. O ambiente ajuda a fazer as cabeças.

Steve Wozniak era (ainda é) um crânio. Mas ele queria ser engenheiro da HP. Se ele ficasse em casa brincando de gênio da eletrônica a Apple nunca teria nascido. Mas ele frequentava os chamados “clubes de hobbistas” e as lojas de peças e outros centros de “troca de idéias”. Num desses conheceu um cara que disse “tem um amigo meu… Steve Jobs… acho que vocês deviam se conhecer”. Mas não é só isso: o próprio Wozniak reconhece que se ele não tivesse inventado o Apple original e iniciado a revolução da computação pessoal alguém iria em breve. Alguém exatamente naquela região de “Nova Florença”. As moléculas orgâncias, os raios cósmicos, a temperatura e pressão estavam prontas para o surgimento da vida. Ele teve a visão e saiu na frente, mas a vida ia surgir em alguma outra garagem dali mais cedo ou mais tarde.

Enquanto isso no Brasil nos trancamos em nossos porões sem trocar idéias com ninguém, sem bater papo, sem nem mesmo ler, comentar e linkar. As desculpas vão da lei da selva, passando pela falta de tempo e síndrome do pânico até a paranóia de achar que isso foi planejado para que sempre fiquemos no terceiro mundo. Mas o fato é que (a começar por mim) não vejo acontecer uma troca de neurônios entre quem acha que quer fazer alguma coisa empreendedoristicamente (se é que existe essa palavra) e tecnologicamente importante por aqui. Até os Meetups de Rio e São Paulo morreram por falta de cabeças. Grupos de usuários de linguagens de programação ou sistemas operacionais também são coisa de gente esquisita. (no último que eu fui roubaram meu carro)

A revolução do momento é a do software. Podemos fazer coisas sensacionais sem gastar um tostão com “peças”, usando só o tempo e nossas cabeças. É o cenário ideal para o Brasiu-siu-siu aparecer. Mas todo mundo tem medo de trocar idéias, com medo de ter seu plano maravilhoso roubado. Como já dizia Paul Graham: se uma idéia sozinha fosse tão importante assim para o sucesso de um empreendimento existiriam eBays de idéias. Até Steve Wozniak trocou idéias. E o cara é um crânio.

Não tenho solução, não tenho proposta, não tenho plataforma de governo nem nada. Só passei mesmo aqui para dizer que me deu uma certa deprê em pensar que de repente estamos transformando isso aqui no “lugar errado na hora certa”. Mas deixa eu voltar pro meu porão…


:: Escrito por Cristiano Dias, dia 18 Apr 2006, 10:04, em Que negócio é esse?.
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