Até prova em contrário

Eu acho que a classe mais radical-conservadora-de-direita que existe depois das carolas de igreja é a dos taxistas. Uma vez por mês topo com um taxista que elogia alguma coisa da época da ditatura como se fosse a coisa mais certa do mundo. Sobre as CPIs atuais, por exemplo: “Os militares é que estavam certo, fecharam a porra do Congresso.”

Semana passada um deles, figura simpática, me contou a história de uma menina em Curitiba que foi abordada por assaltantes que acharam ela gostosinha e resolveram aumentar o delito para estupro. Eu que não tenho sangue de barata gelei da cabeça aos pés. “Aí o cara vai preso e uns dias depois tá solto. Se quem prende ele encosta na parede e dá três tiros acabou, nunca mais vai estuprar ninguém.” (ele pronunciava estupro e estuprar corretamente, é bom notar)

Não há como discordar de uma história como essa, o estupro é a maior violência que pode se cometer contra o corpo e mente de uma pessoa. Mas eu pensei em retrucar, explicar que nem sempre as coisas são claras assim. Dizer que daqui a pouco podem achar que se dessem três tiros em quem avança sinal não teríamos mais atropelamentos e ver se ele se toca que nem sempre a linha é clara. Se eu consigo convencer um taxista ele vira um multiplicador de idéias. Eu sou tolinho assim. Me limitei a responder que se houvesse tanta impunidade assim quanto ele dizia os presídios não estariam super-lotados e que estuprador costuma virar mulherzinha no presídio. “Pode virar, mas depois sai e continua a fazer tudo de novo.” Desviei falando do assunto universal para quando se quer evitar qualquer conflito, o clima.

Ontem acordei disposto a fazer algo que não fazia há muito tempo: sentar no sofá e ver uma corrida de Formula 1. Abri, como de praxe, o computador para ler os emails e lá estava a manchete no navegador: o tal terrorista morto pela polícia londrina era um brasileiro (que não era terrorista). Você já deve ter lido os detalhes, mas basicamente o tal Jean de Menezes saiu de uma casa suspeita, vestindo um casaco suspeito num dia supostamente quente (para os padrões londrinos ou mineiros?), entrou numa estação do metrô e ao receber ordem de policiais não uniformizados para que parasse, correu.

Os vinte policiais correm atrás de Jean que, segundo testemunhas, tropeça ou é derrubado e cai. Aqui é onde as coisas ficam diferentes de uma prisão supostamente normal.

Jean é suspeito de terrorismo. Terroristas só não são piores do que estupradores. Há quem ache que são piores até do que estes. Terroristas matam pessoas inocentes que andam de metrô. Terroristas não prezam pela vida alheia e estão dispostos até a morrer pela causa. Não merecem dó nem piedade e são mais um caso clássico de gente que merece a morte imediata, para que não façam mais o mal.

Os policiais não dão os três tiros que o taxista lá de cima pediu. Nem os cinco noticiados até ontem. Oito tiros. Na cabeça. Um homem-bomba precisa ser neutralizado, se for preso pode simplesmente decidir explodir a bomba ali mesmo. Oito tiros vão fazer o serviço e todo mundo vai ser feliz.

Exceto que Jean não era terrorista, era só alguém assustado ao ver vinte caras armados correndo atrás dele. Aquela história de sermos inocentes até prova em contrário foi, ao que parece, de vez pro saco.


:: Escrito por Cristiano Dias, dia 25 Jul 2005, 20:05, em Welcome to America.
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