Sentimento

Rever a galera era sempre bom. Mesmo alguns anos separados aquele grupo ainda tinha a mesma afinidade. A festa tinha uma boa quantidade de gente, muitos desconhecidos, mas a panelinha se formou imediatamente. Era bom ver como todo mundo seguia sua vida e imaginar como seria o futuro. No grupo da frente uma mãe orgulhosa brincava com seu bebê que dava risadas contagiantes.

— O que será que os bebês pensam? — a pergunta veio quando alguém se tocou que todo mundo estava em silêncio há um bom tempo, apreciando aquela cena.

— Como assim? — retrucaram praticamente todos ao mesmo tempo.

— Bebês não falam. Aquele bebê ali é novo demais para falar. Mas ele com certeza pensa. Alguma coisa está passando pela cabeça dele agorinha mesmo, mas estamos tão acostumados em encadear pensamentos com palavras…

— Sentimentos. — cortei.

— Sentimentos?

— O bebê não pensa na palavra “mamãe”, mas ele pensa no sentimento mamãe.

— Ainda não vi ponto onde você quer chegar.

— Quando ele vê uma mamadeira bem cheia e cheirosa. Ele não pensa “comida” ele pensa hmmmmmmmmm… — enfreguei a mão na barriga quase sem perceber.

A gargalhada foi geral e me senti um perfeito idiota imitando uma criança de menos de um ano de idade com fome e lambendo os beicinhos. Depois de uns instantes de chacota para cima de mim o papo foi, para meu alívio, na direção de alguma outra história engraçada e embaraçosa que alguém viu outro dia. Mas eu sabia exatamente do estava falando, de idéias que são automáticas por serem maiores que palavras e ao mesmo tempo mais simples, concretas, primárias.

Olhei para ela e imediatamente chegou aquela sensação, aquele conforto, aquele bem-estar, aquele… bom, não dá para descrever com palavras, né?


:: Escrito por Cristiano Dias, dia 29 Aug 2004, 15:08, em Vida de gado.
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