Sentimento

Rever a galera era sempre bom. Mesmo alguns anos separados aquele grupo ainda tinha a mesma afinidade. A festa tinha uma boa quantidade de gente, muitos desconhecidos, mas a panelinha se formou imediatamente. Era bom ver como todo mundo seguia sua vida e imaginar como seria o futuro. No grupo da frente uma mãe orgulhosa brincava com seu bebê que dava risadas contagiantes.

— O que será que os bebês pensam? — a pergunta veio quando alguém se tocou que todo mundo estava em silêncio há um bom tempo, apreciando aquela cena.

— Como assim? — retrucaram praticamente todos ao mesmo tempo.

— Bebês não falam. Aquele bebê ali é novo demais para falar. Mas ele com certeza pensa. Alguma coisa está passando pela cabeça dele agorinha mesmo, mas estamos tão acostumados em encadear pensamentos com palavras…

— Sentimentos. — cortei.

— Sentimentos?

— O bebê não pensa na palavra “mamãe”, mas ele pensa no sentimento mamãe.

— Ainda não vi ponto onde você quer chegar.

— Quando ele vê uma mamadeira bem cheia e cheirosa. Ele não pensa “comida” ele pensa hmmmmmmmmm… — enfreguei a mão na barriga quase sem perceber.

A gargalhada foi geral e me senti um perfeito idiota imitando uma criança de menos de um ano de idade com fome e lambendo os beicinhos. Depois de uns instantes de chacota para cima de mim o papo foi, para meu alívio, na direção de alguma outra história engraçada e embaraçosa que alguém viu outro dia. Mas eu sabia exatamente do estava falando, de idéias que são automáticas por serem maiores que palavras e ao mesmo tempo mais simples, concretas, primárias.

Olhei para ela e imediatamente chegou aquela sensação, aquele conforto, aquele bem-estar, aquele… bom, não dá para descrever com palavras, né?


:: Escrito por Cristiano Dias, dia 29 Aug 2004, 15:08, em Vida de gado.

7 Comentários

  1. Anna

    Dá não. :o*

  2. Heloisa

    Nossa, gente, que momento mais cuti-cuti… Mas eu entendo! Se eu tivesse que descrever esse sentimento com palavras eu diria que é como se um fosse a “casa” do outro. É?

    Juízo vocês dois!

  3. Bruno Accioly

    O que nos resta é só o “hmmmmm”, para muitas coisas, né?

    Quando numa sala com 12 pessoas uma delas é condenadas a estar errada, mesmo quem não condena acaba desqualificando a minoria pela maioria.

    O legal de estar com um amigo ou uma namorada numa ocasião destas é ter um escudeiro que nos dê algum crédito, que nos faça sentir que nossas querelas não são contra moinhos, mas contra gigantes que ninguém consegue ver.

    Senso comum, no final, tem muito pouco a ver com bom senso; e mesmo parecendo absurdo… de repente a Terra não é chata, chato é quem trata jocosamente aquilo que a gente sugere ser possível.

  4. Neto Cury

    Foi impossível não ler o texto e não lembrar do filme OLHA QUEM ESTÁ FALANDO, e lembrar daquele bebê fazendo as peguntas e descobrndo o mundo….s
    Mas não liga não, pagar mico junto da galera é super normal, melhor assim, do que aquelas festas que você só conhece as pessoas de vista e tem que ficar sendo simpático e hipócrita…
    Abração

  5. Vladimir

    Beleza de crônica, Cristiano! Adoro curtir a beleza das palavras, mas você me provou que às vezes a falta da palavra pode ser tão bonita quanto!…
    Abraços, Vladimir

  6. Sérgio Moreno

    A representação é melhor que a explicação. ;o)
    Eu te entendo meu amigo… o médico disse para não contraria-lo. :o)

  7. Daniel Cunha

    Ihhhh Anna, não te conheço, mas acho que o Cris está pensando em aumentar a população da casa de vocês

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