Símbolo != todo
Pensando sobre toda essa história do governo Lula — da “tentação autoritária” de que fala a capa da Veja — encontro um texto que vem ao encontro de várias coisas que venho formulando quietinho na cachola.
Desde que me entendo por gente o conceito de governo — não só no Brasil, mas é aqui que eu vivo e conheço — anda meio diferente do meu. (daí você começa a entender que eu só comecei a me entender por gente assim dizendo de uns poucos tempos para cá)
O ensaio fala sobre como vivemos em um mundo onde as pessoas confundem o símbolo com a coisa que ele representa. Sobre como de repente um carro deixa de ser aquele objeto que nos leva do ponto A ao ponto B e passa a ser um estilo de vida, uma força de auto-afirmação. Como compramos jipes que consomem 100 litros por quilômetro não por precisarmos atravessar lama e rios para chegar ao trabalho todo dia. Mas porque eu posso. O consumismo é só isso, é comprar uma coisa não pelo “valor agregado”, ou seja, não pelo que aquilo vai me trazer objetivamente mas pelo efeito causado.
Lá pelo natal de 1998 (chute) pedi de presente a caixa com os três VHSs da trilogia Star Wars. Em outubro sai a mesma trilogia em DVD e provavelmente vou comprá-la na semana do lançamento. Nestes 6 anos que tive os VHS em meu poder devo ter visto os filmes uma vez cada. Eu não comprei quatro horas e meia de filme: eu comprei uma caixa que simboliza um filme do qual me considero fã. Eu comprei o direito de dizer “eu tenho, você não te-em”.
E o que o governo tem com isso?
É outro item mencionado pelo texto. Como aquilo que surgiu como uma maneira de pessoas diferentes atingirem um objetivo em comum (ordem, comércio organizado, ruas limpas) se tornou uma entidade autônoma e normalmente contrária àquilo que a originou. Governo.
Hoje o que mais ouvimos falar é que “o povo tem que entender que o governo isso e aquilo”, que o governo deve preservado, que o governo não pode abrir mão…
Caso clássico sempre citado aqui é a CPMF. O imposto era provisório mas depois de uns anos o governo avisa que, afinal de contas, já conta com esse dinheiro no seu orçamento e não pode abrir mão da receita. A gente que se vire para pagar a conta.
Até então esse governo-coisa ficava a maior parte do tempo na esfera econômica. Agora, com o governo Lula e seus amigos ex-comunas-mas-não-tão-ex-assim o governo-criatura vai ganhando tronco e membros. Esse é o tal sinal da tentação autoritária. O governo aparece como uma entidade superior (em vários sentidos) que deve ser preservado. Falar mal do governo é sinal de que estamos tomando ações para derrubá-lo, praticamente um mau-agouro. Daí surgem medidas (ou, esperamos todos, apenas idéias de medidas) com o objetivo de que ninguém fique sabendo dos problemas do governo. “Confiem em nós… aqui só tem gente bem-intencionada que quer o melhor para o país.” Parece que não é só o céu que anda cheio de gente bem-intencionada, Brasília também vai bem.
Senhores governantes (de qualquer mandato e em qualquer nível da federação): quem deve ser preservado sou eu e os outros cidadãos, não o “governo”. O Governo (vamos usar maiúsculas?) não é uma pessoa, um rei, um deus, uma inteligência superior. O governo é a forma que escolhemos de manter as coisas em ordem. Uma outra opção seria “no tapa”.
Com essa história toda de criar um órgão para regulamentar e “ficar de olho” na impresa — que surge na semana onde mais um escândalo é revelado pela malvada imprensa — o governo mexeu com quem não devia. Eu já vi presidente ser derrubado na TV por muito menos. Infelizmente vivemos em um país onde esse papo de separação dos três poderes é meio lenda… mas espero que o Congresso não deixe isso ir muito longe.
Na reportagem-descendo-o-cacete da Veja e suas declarações do rodapé a que eu achei mais importante foi, quem diria, a do Faustão.
O risco, a meu ver, é essa esquerda acabar fortalecendo a direita radical.
Já andei falando disso aqui em algum lugar… A democracia no Brasil é forte o suficiente para impedir que cambemos para uma ditadura de esquerda (EUA à parte). Só que se o governo Lula não convencer (e anda fazendo justamente o contrário) vamos passar umas boas décadas sem um outro governo de esquerda no Planalto. E essa história a gente já conhece.
Acho exagerada a atual discussão sobre cerceamento da imprensa. Aliás, na política brasileira nunca colou muito esta história de não falar mal em nome do patriotimo. Somos um país sem heróis nacionais, em que nenhuma criança consegue pensar no grito do Ipiranga sem imaginar alguma diarréia de Dom Pedro.
Agora, que a esquerda vai mal, vai mal. Mas não duvido que reeleja o Lula. A maior rejeição deve vir depois.
“A democracia no Brasil é forte o suficiente para impedir que cambemos para uma ditadura de esquerda”
Well, eu acho que já estamos nesta ditadura. O próximo passo é nos tornarmos uma Venezuela, com o nosso querido ( ex-querido, para alguns ) Lula agindo como Chavez.
Posso citar e fazer uns comentários do seu texto no meu blog (uglydarkside.blogspot.com)? Achei interessante e acho que muitos precisam refletir sobre isto (não que meu blog seja um recordista de acessos)
Respeito quem ainda vê algum embate ideológico nessa história toda, mas eu acho que a discussão não tem muito a ver com direita-esquerda. Eu já achei o PT um partido melhor do que os outros. Com o tempo, fui entendendo que era igual aos outros. Mas hoje eu já acho que é pior do que todos. O que distingue o PT dos demais é sua hipocrisia. Há sempre uma boa desculpa para mascarar as piores intenções. Seu apetite pelo poder e pela hegemonia não tem precedentes, e é esse o perigo. Outros partidos ao menos temem a opinião pública. O PT acha que pode manipulá-la. Não vejo aí nenhum Stalinismo. É só o cinismo e a falta de escrúpulos em sua forma bruta.
Excelente texto, Cris. No Brasil, partidos políticos são uma piada. Quem é capaz, realmente, de diferenciar ou mesmo apontar princípios ideológicos de PPS, PFL, PL, PTB, PMDB? São clubes de amigos com vontade de fazer as coisas de um jeito assim ou assado.
Quem sobe ao poder político acaba sempre agindo do mesmo jeito. Defensores de si mesmos.
Lula no poder é a mesma coisa que todos os seus antecessores, só que menos refinado, mais gritalhão, mais truculento.
Brasília é uma cidade fictícia que não produz nada, não gera nada: só existe para esconder os reinantes e alimentar alguns parasitas que se agregam ao centro de poder. Não conheci um único brasiliense que não fosse funcionário público, ou parente de um.
Os políticos, a meu ver, são pessoas que se portam como patos, isto é, quando andam, dizem sim com a cabeça mas ao mesmo tempo não com o rabo. Todas as nações estão enxertadas destes patos, os EUA por exemplo, tem o senhor “Dabliu” que eu costumo tratar, pelos trejeitos, de “Debiola”, pois mistura as “virtudes” do débil mental com as do boiola. Não acreditem, prestem atenção na sua expressão fisionômica (principalmente nos seus olhos !). A Rússia, coitada, esta sim se desintegrou pela incompetência de seus políticos, primeiro o “senhor do mapa” com sua famosa “GlasTroica”, mistura trágica, depois um bêbado inveterado, caindo em plena solenidade ou beliscando a nádega de uma funcionária subalterna, e isto, à vista da TV, sem qualquer perturbação (já é um perturbado), sem se falar no homem atual (da KGB), um tal de Putin (nho). A Coréia, com um ladrão confesso. Israel, governado por um iluminado por um déspota de nome Ariel que aplica as mesmas torturas nos outros povos que um dia o seu sofreu. Aliás, este fulano, de político tem tudo, até copiou o famoso “muro da vergonha” e mesmo condenado por tribunal internacional, nega-se a obedecer. A Palestina, com o homem de turbante não fica atrás, de agressivo terrorista, passou rápido para “governeiro”. A Arábia Saudita, com seu trono de petróleo enfeitado por família que um dia a Inglaterra elegeu, divide uma comunidade árabe que pela lógica deveria estar unida. A bem da verdade não sobra ninguém, mas o BRASIL com certeza, mesmo porque é época de olimpíadas, sobe ao pódium (e não pela primeira vez). O senhor crustáceo, lula ou camarão, sei lá o que mais, tem um Richilieu (com forte sotaque interiorano) mas de ambição bem exteriorana. Resumindo: O artigo espelha com certeza o que também penso, só que de forma resumida, mais modesta, mas valeu.