O bruxo do capital?

Ele já foi chamado de anticristo por evangélicos, aprovado como boa literatura pelo Vaticano e acusado de ser produto de um plágio. (…) Mas agora encontrou seu pior adversário: o intelectual francês.

A polêmica começou pela França: Intelectual acusa “Harry Potter” de fazer apologia do capitalismo.

No dia 4 de junho, o jornal francês “Le Monde” trazia artigo intitulado “Harry no país do mercado triunfante”, assinado por Ilias Yocaris, professor de teoria literária e literatura francesa do Instituto Universitário de Treinamento de Professores de Nice.

(…)

Hogwarts é uma escola privada de feitiçaria, escreve; seus alunos são consumidores vorazes, loucos pelos produtos mais recentes das melhores marcas, fabricadas por multinacionais; seu diretor tem de brigar constantemente com o Estado, representado por funcionários obtusos e incompetentes, como o ministro da Magia.

Uma colega francesa rebateu:

o mago de Hogwarts é, na verdade, o primeiro herói ficcional da geração Seattle, antiglobalização, antimercado livre, pró-Terceiro Mundo.

Um italiano entrou na dança:

o teórico libertário italiano Alberto Mingardi, disse ficar com a opinião de sua irmã de 13 anos: “Depois de ler as 800 páginas de ‘HP e a Ordem de Fênix’ em dois dias, ela me falou o que tinha aprendido com o livro: ‘Que você não deve confiar no governo’”.

E agora a coisa vai aumentando e se espalhando pelo mundo.

Eu não sou Harry Porteiro muito menos especialista em coisa alguma (senão não teria blog, estaria sendo pago para isso). Mas através poucos contos que já tentei escrevi pude realmente ver que você sempre coloca sua visão do mundo no que escreve, por mais inocente e descompromissado que o texto seja. Isso deveria ser óbvio para todo mundo, então mesmo que J.K. Rowling não tenha explicitamente pensado em escrever um livro para lavar as mentes das crianças do mundo todo ali estão valores nos quais ela, em um grau ou outro, acredita. Seu filho está lendo isso agora, goste você ou não.

(Atenção: trocadilho safado a 500 metros) É claro que isso não é motivo para nenhuma caça-às-bruxas e, afinal de contas, os intelectuais são humanos e gostam de uma oportunidade de aparecer dando ao assunto um tamanho maior do que merece botando mais lenha na fogueira (dois trocadilhos safados em uma frase só!). Se estamos sempre dizendo que Harry Potter não é capaz de transformar uma criança em adorador de Satã justamente porque é a contrapartida da família que a traz de volta à realidade o mesmo vale para os valores ideológicos.


:: Escrito por Cristiano Dias, dia 22 Jul 2004, 09:30, em Livros.
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