É por isso que eu bebo

E o caso do jornalista do NY Times, hein? Não se fala em outra coisa. Só que o problema é justamente esse.

Nesse último fim-de-semana saiu o tal artigo e muita gente comentou. Quando vi do que se tratava deixei a coisa de lado. “Isso vai morrer logo” — foi a reação imediata. O artigo era leviano e baseado em declarações de adversários de Lula de confiabilidade duvidosa. Não ia durar um dia.

Aí o governo faz o que fez.

A impressão que me dá, desde o início das crises-2004 do governo Lula é que esse pessoal que está lá não se toca que a cada passo que dão há um país inteiro olhando.

Qualquer entrevista de celebridade que se preze tem o astro reclamando que desde que ficou famoso nada do que faz deixa de ser registrado pela imprensa fofoquista. O governo tem que se tocar que com ele também é assim. Que cada reação será medida, pesada.

Começou lá no caso dos bingos. “Você vai ver só. Não se mexe com o Presidente e seu principal ministro. Bingos fechados!!!” Só que aí o país inteiro entra na brincadeira (empregos foram ameaçados) e começa a discutir não se José Dirceu tinha culpa na história, mas discute-se o direito que o governo tem de fechar os bingos ou não. Seja você contra ou a favor de bingos você acha a coisa meio esquisita, toma partido e a “coisa” aumenta.

Ato II. Jornalista de grande jornal americano publica texto chamando o presidente de bêbado. O artigo tinha tudo de errado, a começar pela foto de Lula na Oktoberfest olhando para uma caneca de chopp. Depois a insinuação de que a bebedeira de Lula é um “caso de preocupação nacional” e o motivo de tantas gafes.

Eu não sei quanto a você, mas o fato de o Presidente beber ou não nunca foi preocupação para mim ou qualquer pessoa com quem eu tenha conversado. O salário mínimo, a tabela do Imposto de Renda, os juros, o desemprego… isso sim é uma preocupação nacional. Se o Presidente enche o pote ou não, isso é lá com as nega dele. Bebedeira de presidente nunca foi preocupação nacional nem aqui nem na Rússia. As gafes cometidas por Lula em seus discursos de improviso não são efeito da bebida e sim desse “esquecimento” de que não são só aquelas 200 pessoas que estão ali naquele momento ouvindo o que ele tem a dizer. São milhões de pessoas vendos nos jornais e na TV, no fim do dia, o que o líder da nação disse.

Dizem por aí que o tal jornalista americano é um arrogante de primeira. “Você saber com quem está falando? Eu ser jornalista de New York Times!” O artigo gerou uma chuva de críticas dos próprios colegas, o que colocaria o sujeito no seu devido lugar.

Aí o governo faz o que fez. Transformou o cara em mártir e obrigou até quem não vai com a cara do sujeito a defendê-lo.

A presidência chega e dá ao caso uma dimensão maior do que precisava, num esquema “eu não levo desaforo para casa”. Não é assim que se governa um país desse tamanho e com tantas ambições como o nosso. Imbecil ou não o jornalista americano — que é casado com uma brasileira há 20 anos e por isso dificilmente vai poder ser realmente expulso do país — estava apenas exercendo o direito dele de falar imbecilidades, ato aliás praticado por uma de suas fontes semanalmente na revista semanal de maior circulação do país. Falar besteira não é crime. Falar mal do governo não é crime. Ou pelo menos não era, já que agora é.

Sinto de algumas pessoas a sensação de que por eu ser “Lulista” — por eu ter declarado várias vezes aqui neste blog que apoiei a candidatura do PT em todas as eleições diretas do Brasil após a ditadura — eu não veja defeitos neste governo. Só que essa é justamente a beleza de ser liberal: a de saber que nada é perfeito e que até nossos líderes queridos cometem falhas, mas que isso não invibializa de cara todo o governo.

A prova de que o governo do PT é mais sério ideologicamente falando do que os anteriores é justamente um dos pontos de crítica favoritos dos adversários: a de que o PT não consegue se entender internamente. Os parlamentares do governo não conseguem nem aprovar a medida provisória anti-bingo. Um senador de um partido teoricamente governista (PMDB) apresentou pedido de habeas corpus protegendo o jornalista do NYT. Os deputados do PT querem um aumento do salário mínimo maior do que o dado pelo executivo. Mas que desorganizado esse pessoal!

Eu vejo isso como uma coisa boa, sinal de que não há seguidores cegos e burros. De que há uma clara separação entre legislativo e executivo — coisa que nem sempre temos por aí — que é uma das bases da democracia. O Presidente não é Deus ou seu enviado (apesar de muitos dizerem que são) e o legislativo está ali justamente para calibrar essas medidas tomadas sem se pensar sobre o dia seguinte.

Estou muito preocupado com o rumo que o governo Lula está tomando, com a maneira como ele está sendo visto na mídia. Não é apenas um mandato de quatro anos que está em jogo. Se esse governo não cumprir as (enormes) expectativas da população ficaremos aí umas duas gerações sem um outro governo de esquerda. Pesquisas divulgadas recentemente já mostram que muitos jovens acreditam que uma ditadura grossa de direita até que não é má idéia. Esses jovens vão ensinar aos nossos filhos que o governo de esquerda que o Brasil teve certa vez foi uma porcaria e que o certo mesmo é deixar o país ser governado pelos empresários porque eles sabem o que é melhor para o povo. Há muito a perder nessa brincadeira e não falta muito para começarem a dizer que a Regina Duarte tinha razão.

O Presidente Lula e seus ministros precisam entender que não há tempo de “aprender a ser governo”. Cada decisão é pensada e analisada por milhões de pessoas, muitas delas doidas para ver esse pessoal fora do Planalto e com poder de fazer muito barulho. Mexer com a imprensa definitivamente não é uma boa idéia. Nesse ponto não importa o qual bem-intencionado você seja nem quanto tenha feito de bom “nos bastidores”. Sua imagem já foi queimada pela turma-do-barulho e toda a idéia legal de como governar o país foi para o saco.

Da maneira que está, fica cada vez mais difícil apoiar esse governo…


:: Escrito por Cristiano Dias, dia 14 May 2004, 15:24, em Brasil-sil-sil.
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