Poor is beautiful

Ainda seguindo a série “ter dinheiro é feio, muito feio” pensei em outra história, a do “enobrecimento da pobreza”.

Nas épocas pré-industriais as castas da sociedade eram bem mais definidas. Quem nascia pobre provavelmente ia morrer pobre. Como, então, “a massa” aceitava tal destino de cabeça baixa? Vendia-se a idéia de que aos pobres pertence o Reino dos Céus. Para o católico, ser rico é “pecado”. Não fica bem “ser apegado aos bens materiais”. O importante é a riqueza de espírito.

E ainda vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus
  — Mateus 19:24

É claro que isso só valia para quem não tinha dinheiro. Os ricos continuavam com sua vida regada e, na hora do desespero, compravam uma indulgência e tudo bem. Na base da pirâmide essas e outras idéias (como a de que o rei era um enviado direto de Deus) seguravam o povão. Ser pobre era ser uma bela ovelha do grande rebanho celestial.

Aí vem a curiosidade de que uma das grandes cisões do protestantismo era justamente o conceito de indulgências e “comprar um lugar no céu”. Olhando rapidamente vemos que os países mais ricos do mundo são protestantes e que lá ter dinheiro não é feio, muito feio. Para o protestante ter dinheiro é um sinal de que se está nas graças dO Senhor. Ter dinheiro é sinal de sucesso, o que é óbvio demais quando escrito dessa maneira, mas — repito — no Brasil é feio, muito feio.

Hoje em dia a religião não influencia 100% das pessoas, principalmente no Brasil com sua mistura de credos onde o católico faz despacho na macumba e bota um galho de arruda na orelha. Como, então, convencer “a massa” de que a pobreza é melhor do que a riqueza.

Dizendo que dinheiro não traz felicidade.

Onde quer que você olhe há mensagens enfatizando que ter dinheiro não é o mesmo que ter felicidade. Em vez de ricos que deram dinheiro aos pobres e entraram no Paraíso temos histórias de pobres que ganharam muito dinheiro mas perderam a felicidade. Gente que deixou de ir no pagodinho com churrasco para ir ao Moulin Rouge mas não “se encontrou”. Mulheres… iates… cem mil dólares… nada disso traz a felicidade. Toda novela que se preze tem seu núcleo pobre onde as pessoas são simples e felizes, enquanto que os escândalos de traição e cobiça acontecem no núcleo rico.

Mudei minha vida, agora sou desprendido dos bens materiais. O que se leva da vida são as emoções.

Não que uma pessoa só deva se preocupar com dinheiro, vivendo em função dele. Mas enquanto espalha-se o conceito de que dinheiro não traz felicidade, de que só é feliz quem é pobre… enquanto achamos legal acreditar nisso tudo os ricos vão ficando mais ricos e vão passear de primeira classe na Europa. Afinal de contas se eu sou pobre é melhor pensar que a pobreza é a coisa mais maravilhosa do mundo em algum sentido, não é? Se ser pobre é o que nos torna melhores o certo deve ser não ter ambição, não pedir aumento, não pleitear melhores condições de vida. Isso só vai nos levar para o apego ao material e nada disso importa. É pecado, é feio, tsc tsc tsc… Muito feio.

Eu sou pobre mas eu sou feliz.

Será mesmo?


:: Escrito por Cristiano Dias, dia 6 May 2004, 21:45, em Filosofia de botequim.
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