Prefiro minha parte em dinheiro, obrigado
Outra semana aí nosso presidente mandou mais um de seus famosos discursos de improviso e a bomba da vez é que todo mundo que paga muito imposto de renda devia se considerar um privilegiado, afinal de contas está nos 2% superiores da renda nacional.
Esse papo todo é mais um sinal do que todo mundo já vem sentindo há anos e anos: no Brasil ter dinheiro é feio. Muito feio. Ai ai ai.
Vem o Jornal Nacional de ontem e mostra como cada vez mais as “moedas alternativas” são usadas no dia-a-dia. Ticket refeição, vale transporte e toda a gama de papeizinhos viram dinheiro — perante um pequeno deságio, é claro — na mão da economia informal.
Não é coincidência, é populismo. Para que promover aumento de renda se podemos dar ticket isso, cheque aquilo, vale aquilo outro? Quem precisa de salário quando se tem fundo X, programa Y, bandeijão Z? O governo está ensiando à população que ter dinheiro é besteira. Legal mesmo é programa social.
Essa visão pegou de vez lá na época das eleições diretas para governador, nos idos de 1982. Candidatos eleitos viram que muito melhor do que melhorar a vida das pessoas é dar um “vale melhoria” que, na prática, surte o mesmo efeito mas está condicionado ao programa criado e, portanto, ao governante. E ainda dá uma bela propaganda de televisão. Quem é do Rio lembra do candidato a deputado que dizia merecer seu voto por ter sido ele, anos e anos e anos antes, o inventor do décimo-terceiro salário.
Nesses vinte anos foi entrando na cabeça das pessoas que, no fim das contas, quem não precisa desses programas assistenciais por ganhar o suficiente para pagar sua própria comida, roupa, transporte e diversão é um privilegiado. De repente, por exemplo, ter carro é ofensivo. Você olha uma pessoa com um carro bonito e em vez de pensar “um dia eu chego lá” só consegue pensar “o sacana deve roubar muito pra ter um carro desses, olha eu aqui apertado no lotação…”.
Certa vez um conhecido meu bateu em um ônibus depois de ser fechado por este em uma rua qualquer. Os passageiros do ônibus se voltaram contra a vítima (o tal conhecido) gritando para o riquinho que tinha carro sair da frente e deixar os trabalhadores irem para seu serviço.
É claro que não estou aqui dizendo que programas assistenciais são maus e devem ser banidos a partir de amanhã. Só estou dizendo que em vez de décimo terceiro, fundo de garantia, vale transporte, ticket refeição, salário desemprego… Em vez de todos esses ditos benefícios eu preferia minha parte em dinheiro. Eu preferia que o governo (em todas as esferas) me tratasse como adulto. Eu sei (ou não!) como melhor aplicar meu dinheiro. Se no fim do mês não sobrar dinheiro para a passagem do bonde azar o meu. Vamos melhorar a renda de todo mundo, distribuir melhor esse dinheiro todo e acabar com essas medidas populistas.
Acima de tudo escrevi tudo isso para defender essa idéia de que no Brasil ter dinheiro é visto como uma coisa muito feia. Vamos encarar “ter dinheiro” como uma vitória pessoal e um objetivo para todos, não como uma coisa da qual se envergonhar. Vivemos num mundo capitalista. Ter dinheiro é bom.
Resta saber se “o povo” preferiria as coisas assim.
(mais sobre esse assunto amanhã)
Não tinha pensado por esse ponto de vista.
Vou refletir, depois eu comento
cris, não dá mais para acreditar no ser humano. ou todo mundo se liga que vamos morrer todos no meio de fumaça e miséria ou é melhor recomeçar tudo de novo mesmo, meus deus.
isso é que dá ter uma moeda que não vale nada. os caras ficam inventando moedas de faz-de-conta pra enganar eleitor-bobo.
Cara, essa inveja - por que é inveja - não é exclusividade do Brasil. Esse comportamento existe no mundo todo. Nos EUA tá uma torcida ferrada para a Martha Stewart se ferrar e ir em cana. Querem que a mulher tenha um comportamento acima dos das outras pessoas por quê? Só um de inúmeros exemplos…
A diferença - e você botou o dedo na ferida - é que em outros lugares as pessoas realmente aspiram a alcançar o que os bem-sucedidos tem. E no Brasil parece-se torcer para que todo mundo se ferre. Talvez daí tanto apoio a idéia socialista, antigamente defendida pelo PT e agora relegada as Heloisa Helenas da vida…
Mas a gente não pode esquecer que em outros lugares as condições para que se alcance o mesmo nível de sucesso são mais ou menos “level-field”. No Brasil, um cara que nasce pobre hoje em dia para sair da miséria é complicado né? E na cabeça das pessoas - até por injunção de alguns políticos populistas mau-caráters e de uma educação propositadamente pobre - fica que quem tem dinheiro (teve mais chance na vida) só tem porque os mantém quem não tem sem ter.
E aí toca-se no principal problema: para onde vai todo o dinheiro que os que tem grana pagam em impostos? Porque esses impostos não beneficiam quem precisa - que afinal é o objetivo deles? Não se paga pouco imposto no Brasil não!!!
E aí a gente se toca que o grande problema do Brasil é, sempre foi, e sempre será o Governo - que é quem some com toda a grana que pagamos em impostos.
Menos Governo significaria mais repasse dos impostos (até porque diminuiria a possibilidade de desvios corruptos), que se aplicados devidamente poderiam elevar o nível de educação da população e garantir um maior “level-field”.
Isso, claro não vai acontecer numa geração ou duas.
Se eu acreditasse que o Brasil tem jeito eu acharia que ia levar umas 4 gerações para as coisas mudarem.
Em tempo: nada de bom e ruim que acontece no Brasil é exclusividade do Brasil. É tudo uma questão de escala…
Mandou bem mais uma vez, Cris.
Aliás, essa conversa toda me fez lembrar o fato de que nenhum produto é tão tributado no Brasil quanto o automóvel.
Parece que todo o aparato legal quer punir ao máximo o “elitizado” sujeito que lutou para ter seu veículo de quatro rodas. Quando se compra um carro aqui, se paga praticamente dois: um para você, outro para o governo. Sem contar as taxas anuais e o absurdo do IPVA, imposto que existe simpolesmente porque a pessoa possui um carro.
Eu sempre fico surpreso como o Brasil aceitou tão bovinamente este imposto que foi criado pelo governo de Orestes Quércia e que foi estendido a todos os estados brasileiros.
Eu quero a minha parte em vale-presentes da Submarino!
falou bem, eu mesma tenho percebido essa “raiva” contra as pessoas que tem um pouquinho mais, já imaginando que fulano é “playboy” ou “roubou muito para ter tudo isso”, etc e tal. muito triste.
Certa vez uma gerente de uma empresa que prestei serviço, me disse uma frase que até hojê me choca.
“A cesta básica, ou o vale cesta básica, quando dado pelo patrão é o atestado, assinado pelo mesmo patrão, de que. Eu não te pago o suficiente para comer, por isso estou te dando esta comida.”
A muitos anos atrás, quando começou a abertura econômica da China, o “grande lider” declarou: “Ficar rico é glorioso!”…
É por essas e outras que eu fiz questão de largar a carteira assinada e passar a trabalhar como PJ, apesar de todo o trabalho a mais para manter a “empresa”. Nada de fundo de garantia, 13º, tickets, vales, INSS. EU guardo quando sobra e gasto tudo quando preciso ou desejo. Ponto final. Mas que às vezes dá saudade da carteira, por comodismo, isso dá
Quanto a esse pensamento de que ter dinheiro é feio, não é de agora. Me lembro de um fato há uns 20 anos, em uma assembléia de estudantes na UnB, quando um cara foi criticado da plenária por ser funcionário do Banco do Brasil e, portanto, um “privilegiado”, deixando subentendido que ele deveria ter vergonha disso.
A resposta do cara foi um tapa: “Cara, eu passei em um concurso PÚBLICO. Você também poderia ter feito.”
Pois é
Abração
Marcus
ps. Em tempo, tenho inveja de você, um privilegiado digital, que ainda consegue tempo ou ânimo para fazer suas críticas políticas no blog
Ué Cris, vc não votou no Lula? Achei que vc soubesse que o populismo e todos os tipos de “Vale Alguma Coisa” viessem junto com o governo do barbudo…
Um beijinho
Olha, Edu, o problema dos vales não é uma culpa do patrão, mas sim da taxação em cima de tudo o que a empresa faz. Se a empresa pagar o salário integral, incluíndo vale transporte e vale refeição, vai pagar uma grana muito maior em impostos do que se pagar os vales “por fora”. O governo só legalizou os “por fora”.
E, Valéria, o fato de termos votado em um candidato não nos impede de criticá-los, muito pelo contrário. Também votei em Lula e não estou satisfeito com o que foi feito até agora, apesar de ainda acreditar que as coisas podem dar certo.
E, bem, não creio que o populismo fosse a proposta deste governo. Me lembro até de um leitor do meu blog me questionando antes das eleições sobre uma proposta de alguém do PT para acabar com o FGTS. Eu condei com a proposta mostrando que justamente por discordar com pagamentos como este, passei a trabalhar como PJ.
Agora tenho que ir, depois continuamos ;-)…
Olha Marcus, eu sei que a “culpa”, não unica e somente dos patrões, eu tambem as vezes sou patrão, não trabalho pela CLT a mas de 10 anos, vivo escutando que as minhas decisões quanto a esta escolha de não ser empregado é no mínimo ERRADA.
Bem eu não creio, nisto dai que insisto em ficar do lado de cá. Por outro lado é engraçado de como o patrão não tenta lutar, junto com a sua classe e com outras mais esclarecidas para mudar isto, esse lance de dar o vale e não pagar em grana, se você parar para analisar de uma forma ou de outra o governo já não esta recolhelhendo a parte dele não é?
Olha eu tb estou sismado com o Lula, acho até que a coisa é isso ai mesmo…
Mas outro dia li sobre um prejeto de lei que pretende desvincular o salario mínimo da previdencia, a principio por mais dura que sejá a medida, acho valida
no sintido que ela pode aumentar os rendimenstos de quem trabalha na iniciativa privada. Acho que o caminho é dar um intervalo, entre o aumento de quem está na ativa e um aumento de quem já esta aposentado. De forma que a previdencia possa fazer caixa, para se preparar para os novos aumentos. Claro que podemos adotar confuntamente com isso outras medidas, mas creio que isto é assunto para um outro comentario.
O que me dizem?