40 anos depois
Faço coro com o Maron indicando o ótimo texto do Paulo Henrique Amorim, uma espécie de “Aprenda a derrubar um presidente em 21 dias”. Com o plus de que foi escrito por um cara “di dentro”.
Um instrumento importante para a televisão dar o golpe é a utilização das “pesquisas” de opinião pública.(…)
Primeiro, ao se preparar um golpe para depor o presidente eleito, é muito importante dar destaque às pesquisas de opinião publica. Falo, é claro, de pesquisas em que o presidente eleito fique mal. Dar na escalada do jornal da tevê. Fazer computer-graphics fortes. Poucas telas, para não confundir. Poucos elementos por tela, para ressaltar o mais importante. Usar cores primárias. Confirmar os dados da pesquisa com “comentaristas”, de preferência os donos dos próprios institutos de pesquisas, para evitar dúvidas ou interpretações ambíguas.
O importante é fazer com que o resultado de cada pesquisa pareça o resultado de uma eleição. Para que a legitimidade do presidente eleito se submeta a vários “turnos”: cada pesquisa é uma nova eleição.
(…)
A rigor, os institutos de pesquisa de opinião pública só precisam acertar uma pesquisa: a de boca de urna, no dia de eleição. Todas as outras são precárias. Ainda mais que a indústria da pesquisa de opinião pública no Brasil é tão transparente quanto era a indústria do bingo.
Um instrumento poderoso para derrubar um presidente da República eleito é fazer com que uma instituição financeira -de preferência americana- contrate uma pesquisa de opinião pública.
Aí, é a sopa no mel. Porque, se o presidente candidato à reeleição se sair mal na pesquisa, torna-se alvo de duas armas mortíferas: a perda de legitimidade e a subseqüente condenação dos mercados financeiros internacionais.
Isso aconteceu na última eleição, com efeitos dramáticos. O então presidente Fernando Henrique Cardoso e seu candidato José Serra foram para a televisão dizer que a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva significava “a argentinização” do Brasil. Essa impressão se confirmava em pesquisas contratadas por um dos maiores bancos americanos, o Bank of America. Quanto mais Lula subia nas pesquisas, mais o Brasil se aproximava do abismo. O banco americano Goldman Sachs, onde pontifica um respeitado economista brasileiro, Paulo Leme, criou o “dólar Lula”: cada vez que Lula subia nas pesquisas, o dólar subia junto.
Mas vai lá e lê tudo, vai?
Me lembra o papo de que “se o Lula for eleito os militares vão tirar ele do poder no dia seguinte”.
Trecho do artigo:
“Diz-se que o Brasil é um exemplo ao mundo: que a votação eletrônica brasileira é à prova de fraude. Em 1982, no Rio de Janeiro, vi uma eleição à prova de fraude ser manipulada, na digitação dos votos, por obra de uma associação do então SNI com o candidato do governo, Moreira Franco, e o apoio da Rede Globo e do jornal O Globo. Tudo para impedir a eleição de Leonel Brizola ao governo do Estado.”
Curioso o Amorim revelar a participação da rede Globo numa fraude, 22 anos depois. Sendo que nos anos subsequntes, ele exatamente trabalhava para esta rede.
Quando se paga o salário isso não pode vir a tona. Se trabalha para o concorrente, pode. É um excelente texto, mas condeno esse profissional saber dessa informação e nunca ter levado ao conheecimento público.
Não necessariamente no dia seguinte, Cris. E, talvez, não necessariamente os militares. O insuportável é ouvir, em pouco mais de um ano de governo, gente dizer que “do jeito que está não fica até o final”. Democracia pra essa gente é apenas um conceito abstrato. Larguem o osso do poder, pô. Organizem-se, façam um candidato pra 2006 e vençam nas urnas. Aqui no Rio me decepcioneicom a eleição da governadora, mas o que posso fazer? Pedir pra ela sair só porque não gosto dela? Essas insinuações de “do jeito que está ele não dura quatro anos” apenas criam um clima de desconfiança e impaciência completamente desnecessário.