Espanha de luto

E o medo atacou novamente.

A tristeza é pelas pessoas que morreram, pelas que foram feridas, pelas que temeram o pior e por saber que, quando ataca, o medo sempre vence. Quando um extremista explode uma bomba em um trem ou joga um avião contra um prédio ele não está pensando nas 190 pessoas que vão morrer. Ele está pensando em como a vida dos que ficaram vai mudar. Dez milhões de espanhóis foram às ruas hoje, em sinal de protesto. Isso dá um quarto da população de lá. Como é que, a partir de amanhã, eles e os milhões de passageiros que todo dia pegam trens na Europa vão se sentir cada vez que virem uma mochila abandonada em um vagão? Se ficarem apavorados o medo terá deixado mais uma marca. Se tentarem seguir como se nada tivesse acontecido podem morrer. Não há como vencer.

O medo é o que realmente faz o mundo girar. Com o medo vem os caçadores-de-medo. Com o medo mudamos as leis, botamos grades, instalamos anti-virus, aplicamos nosso dinheiro, casamos para não ficar na solidão. Compramos mais jornais, vemos mais TV, para saber por onde o medo anda e como ele se veste. Vamos mais à igreja. Anulamos nossas liberdades para que o medo acabe. Criamos super-presidentes, super-ministros e super-secretários. Eles dizem que com mais poder vão acabar com o medo. Mas não era tarefa deles, antes de mais nada, tornar o mundo um lugar melhor para impedir que o medo chegasse?

Mas a paz tem um preço, pra que se enganar? Para que o medo acabe nós deixamos estes senhores e senhoras tomarem conta de nossas vidas. Só um pouquinho. No dia em que o medo for embora eles também podem ir. Se a coisa ficar difícil é só a gente dar mais poder para eles, até o medo ser vencido e eles poderem ir embora.

Só mais um pouquinho.


:: Escrito por Cristiano Dias, dia 12 Mar 2004, 19:54, em Filosofia de botequim.
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