Os piores erros da web em 2003

Mestre Jacó nos conta o que rolou de errado em 2003 pelas bandas digitais de cá. Aqui vai o resumo da lista, com os meus comentários não tão resumidos.

1) Função pouco clara. Ou: onde estou?

Você já deve ter feito isso pelo menos alguma vez: recebeu um e-mail (ou viu um comentário em um fórum) de fulano@acme.com e foi lá em acme.com ver que site é esse. O problema é que na maioria das vezes você chega e não tem a menor idéia do que, afinal de contas, a empresa faz. O webdesigner partiu do princípio só algumas vezes correto de que você foi para aquele endereço sabendo do que se tratava.

Esse é, claro, um exemplo extremo e “visita ao acaso”, mas algumas vezes (e hoje em dia mais e mais) vamos a um site indicado por um outro site (nem só de Google vive a web) e fica realmente difícil saber para que aquela empresa veio. Segundo Jacozinho-da-web esse problema é maior nas empresas de tecnologia, que adoram usar um marquetês vago para não limitar seu potencial de vendas.

2) Novas URLs para conteúdo antigo. Ou: seus permalinks estão podres.

Aqui no Brasil esse fenômeno é velho conhecido dos blogueiros que frequentam o No Mínimo. Você leu aquele artigo legal, quer fazer um link mas aquela URL só vale por uma semana. Quando o texto for para “edições anteriores” a URL terá um novo formato. Mas se a página será basicamente a mesma, para que uma nova URL?

O Jacó vai na veia: se a URL para um texto antigo seu muda muito as pessoas vão preferir colocar link para o mesmo conteúdo em um site “concorrente” seu onde os permalinks são confiáveis. (e, realmente, perma)

3) Conteúdo sem data. Ou: legal, mas isso ainda é verdade?

Mais uma da categoria “você já passou por isso”. Uma busca no Google indica um documento com a informação desejada, você festeja para só depois descobrir que aquele press-release contando que o produto estará disponível nas lojas X e Y é, na verdade, de 1999. Só que esse o texto em si não tinha data, você descobriu tal fato quando ligou para a loja e ficou sabendo que o produto nem existe mais. A lista jacobina cita como exemplo a área de resultados financeiros dos sites de várias empresas que não indicam qual ano estão relatando.

Lembre-se: você nunca sabe como o leitor chegou a um documento do seu site. Ou: nem só de Google vive a web, mas ele ainda comanda o batatal.

4) Mini-fotos pequenas demais. Ou: queeeem?

Fazer uma mini-foto (thumbnail) com um “clique para ampliar” é sempre uma boa idéia, mas nem sempre a informação original é preservada quando você simplesmente diminiu o tamanho da foto original. O ótimo exemplo dado mostra uma foto com “três pessoas andando”. O problema é que quem são as três pessoas e onde elas estavam andando era a parte mais importante da foto.

5) Textos ALT exagerados. Ou: temos uma boa e uma má notícia.

A boa é que mais e mais pessoas estão usando o campo ALT da tag <img>, que é obrigatória. Através dela pessoas com deficiência visual ou aqueles acessando seu site num celular ou outro dispositivo portátil qualquer vão saber o que é aquela imagem. A má notícia é que os textos ali colocados estão exageradamente grandes em alguns sites, como no exemplo: o logotipo da empresa que só deveria dizer “Logotipo da IDEAS” dizia “Link para a página inicial usando o logo da IDEAS: dois swooshes envolvem idéias e um sol nasce ao fundo”.

Antes de colocar um ALT assim no seu site pense só que um navegador para cegos vai ler em voz alta esta frase toda vez que uma página for carregada e você já tem idéia do ódio que o usuário vai ter da sua empresa lá pela terceira página.

6) Nenhum suporte a “e se?”. Ou: mudei de idéia, mas só um pouco.

Não lembro agora de nenhum site de e-commerce com suporte a “e se?”. A idéia, basicamente, é mostrar ao comprador o produto (e, claro, o preço resultante) com ligeiras diferenças.

“E se eu quiser voltar sábado e não domingo, quanto fica o mesmo vôo, na mesma classe, no mesmo horário?”

“E se eu quiser 256mb de memória, e não 128mb, quanto fica o mesmo computador, com o mesmo HD, com a mesma placa de vídeo, o mesmo tudo, só mais memória?”

“E se eu quiser o mesmo carro, só que com pintura metálica e ar-condicionado?”

Esse talvez seja um dos motivos que muita gente ainda prefere fazer suas transações comerciais pelo telefone ou pessoalmente: na web você só pode comprar aquilo que já tem certeza. Se precisa comparar, analisar, ver a melhor opção a coisa ainda é bem complicada. Motivo pelo qual, é bom dizer, eu não gosto de comprar viagens pela Internet.

7) Listas longas que não podem ser filtradas por atributos. Ou: menos é bom.

Esse assunto já foi arranhado aqui na história do Mercado Livre: muitos sites — na ânsia de mostrar que têm muito — criam listas de produtos enormes que mais atrapalham o usuário da hora de achar aquele produto específico do que ajudam.

Segundo o artigo um site deve oferecer opções para excluir items de uma lista de produtos. Usar categorias é um bom começo, mas pense em situações do tipo:

“Não quero carros 4 portas.”

“Não quero livros usados.”

“Não quer CDs importados, são muito caros.”

“Só quero produtos que possam estar na minha casa até o Natal.”

Sabe quando você entra na loja e o vendedor pergunta se deseja ajuda? Qual sua resposta normalmente? “Não, obrigado… só estou olhado.”

Entrar em uma loja virtual (ou qualquer site onde você vai procurar informação) e ficar “só olhando” até escolher o que quer ainda é uma tarefa difícil para os usuários.

8) Ordenar produtos só por marca. Ou: eu quero uma camisa vermelha.

Se a categorização é mal usada acabamos com um site — segundo o exemplo do texto — onde você pode ver todos os tênis Nike e depois todos os Adidas, mas não pode ver todos os pretos.

Pense na categorização dos seus itens como uma “teia” e não como uma “árvore”. (é world wide web, lembra?)

9) Formulários imbecis. Ou: agora dê três pulinhos num pé só.

Esse é o meu favorito, assunto que já andei comentando por aí mais de uma vez. Ir em um site que peça um cadastro com mais campos do que nome e e-mail é sempre uma “diversão”. Jacozinho começa a explicação indo direto ao ponto: o trabalho tem que ser do computador, não do usuário.

Estamos falando dos formulários de cadastro que dizem “digite seu CPF mas não use espaços, pontos, traços ou espaços”. O mesmo vale para CEP, telefone, campos numéricos em geral e até os campos endereço que se quebram em logradouro, nome, número e complemento.

Ora bolas, se você não vai usar o tracinho no CPF e eu digitar um, simplesmente remova o tracinho. O código necessário para tal operação é menor do que o código para avisar que o meu CPF é “inválido” por ter um tracinho.

No exemplo de Jacó:

Telefone: () -

Se seu usuário precisar informar um código DDI, um ramal ou mais de um meio de contato e esse é o seu campo telefone você acabou de perder um cliente. No dia em que as empresas telefônicas de Rio e São Paulo adicionaram 1 dígito ao prefixo você teve que alterar todo o seu site para atualizar o campo prefixo de maxlength="3" para maxlength="4".

Finalmente, só quebre os campos onde você realmente precisa da informação separada. Primeiro nome e sobrenome são justificáveis para mensagens personalizadas do tipo “Olá Cristiano”. Mas quebrar um campo telefone ou endereço em três ou quatro sub-campos é não só inútil como também mais trabalho para o seu usuário.

Nem mesmo o maior aficionado por estatísticas do mundo vai pedir um relatório com todos os clientes que moram em “Rua” ou “Alameda” mas não em “Avenida”, ou com telefone prefixo 226 ou que moram no apartamento 202. E se você precisa de tais relatórios seu usuário não tem nada com isso e não deve ser penalizado.

Formulários de cadastro na web hoje em dia dão um livro inteiro. Só peça informação útil ao seu usuário. Por que tenho que informar minha renda familiar e quantas geladeiras tenho em casa para comprar um par de cuecas?

Não é por mim. Eu peço essa consideração pelos idosos.

10) Páginas com links para si mesmas. Ou: clique aqui para continuar no mesmo lugar.

Bem… esse vou ter que confessar que cometo por aí mas dou minha palavra de escoteiro que vou começar a prestar mais atenção. Ignore o fato de que eu nunca fui escoteiro.

Esse problema é mais comum em sites com um cabeçalho (e/ou rodapé) padrão principalmente com um link para a página inicial mesmo quando você já está na página inicial.

A culpa (vamos jogar a culpa em alguém!) normalmente é dos sistemas de publicação automática que não deixam você alterar os objetos de navegação com base na página atual.

No meu currículo online a página atual não é clicável no menu da esquerda. No TopLinks a página atual não aparece como opção no menu inferior. Mas no Vilago a página atual é clicável em qualquer menu e há um link para “início” mesmo quando você está na homepage.

O problema aqui é deixar o usuário perdido. “Será que eu estou na página de produtos? Eu acho que sim, mas ali do lado tem um link pra página de produtos… deixa eu clicar para ter certeza.” Em alguns casos (como no meu currículo) ter uma navegação “esperta” ainda serve como indicador de onde você está. Para que um novo cabeçalho dizendo “Introdução” se no menu de navegação esta palavra está destacada e não pode ser clicada?

No fim da lista Jacob Nielsen (um eterno pessimista?) diz que muitos dos problemas (como a questão das ALTs) mostram que, pelo menos, estamos começando a pensar mais em usabilidade, com alguns erros mas também muitos acertos.

Com a contínua consolidação dos navegadores de última geração em 2004 vamos poder prestar mais atenção em tornar a vida do usuário mais fácil e menos em como fazer aquela tabela funcionar com aquele efeito DHTML naquele navegador arcaico.


:: Escrito por Cristiano Dias, dia 29 Dec 2003, 18:55, em Informática de vez em quando é bom.

3 Comentários

  1. caio

    jakó é rei e nenhum incauto há de contestar.
    algumas coisas são forçadas demais mas o cara tem suas razões.

    assino embaixo.

  2. E=mc ²

    Einsten fumando maconha no Rio de Janeiro…

  3. Libbe zu Dritte

    Faltou aqueles casos

    1- formulários super espertos/chiques/modernos em Javascript que não funcionam com Netscape/Mozilla/Opera.

    2 - o maldito Javascript de “proteção do conteúdo” que não te deixa clicar com o botão direito pra dar um Open in New Tab ou Abrir em uma Nova Janela

    3 - Aqueles que usam super-estilos e tabelas e que não são legíveis em Mozilla/Opera (e as vezes nem no IE mesmo)

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