Giro

Voltando à história de se cobrar os usuários de Internet dedicada por banda consumida.

Vésper lança novos planos de acesso à internet

A Vésper está com dois novos planos para o serviço de acesso sem fio à internet em banda larga Giro. Batizados de Giro 1000 e Giro 2000, o primeiro é destinado a internautas que usam a conexão rápida primordialmente para navegar, ler e-mails e que baixam arquivos moderadamente, enquanto o Giro 2000 é voltado àqueles que fazem um uso mais intensivo como baixar arquivos de músicas, trailers de filmes, softwares e outros conteúdos multimídia.

A assinatura básica mensal do Giro 1000 é de R$ 49,90 e o consumo mensal – a soma dos dados recebidos (download) e enviados (upload) para a internet – incluído no pacote é de até 1.000 MB. Já a assinatura básica do Giro 2000 custa R$ 69,90 por mês e o consumo mensal é de até 2.000 MB.

A cobrança por uso, segundo Alexandre Alvim, diretor de desenvolvimento de negócios 3G da Vésper, é comum em produtos que envolvem consumo de recursos, tais como eletricidade, água e gás. No modelo atual de cobrança de serviços banda larga, ele observa a maioria dos usuários, que usa moderadamente, acaba pagando mais para subsidiar uma minoria que usa muito. “É como se o cliente pagasse o mesmo valor de quem deixa um aquecedor elétrico ligado o dia inteiro, enquanto ele consome energia numa escala bem menor, apenas de manhã e à noite”, compara Alvim.

Assim como os políticos, os marketeiros têm o poder de fazer você achar que uma coisa ruim é a melhor coisa que podia lhe ter acontecido. Como costuma dizer um amigo meu canadense: “por favor, não mija no meu ouvido e diz que é chuva”.

Me ocorreu que as empresas brasileiras adoram comparar as coisas aos EUA quando lhes interessa. “O governo devia [qualquer coisa que benificie as empresas]. Nos EUA é assim.” Mas na hora de favorecer o cliente eles esquecem.

Então vou lembrar: caro Alex Alvim, nos EUA a ligação telefônica local é ilimitada e não há nenhum provedor cobrando por hora usada ou banda consumida. Como já bem disseram aqui nos comentários, não quero voltar ao tempo do dial-up onde eu tinha que ficar contando as horas para não estourar meu limite mensal.

Eu tenho Internet dedicada por dois motivos: preciso estar conectado o tempo todo para poder falar com meus clientes na hora. Também gosto, é claro, de baixar toneladas de arquivos da rede. Não só coisas piratas como mp3. Eu estou sempre no site de trailers da Apple e baixando demos e trailers de jogos. Adoro sites de filme com seus flash-bangs que avisam de cara “usuários de banda estreita, nem pensem em clicar aqui”.

Então, francamente, se meu provedor começar a me cobrar por banda eu talvez não volte para o dial-up (por causa do primeiro motivo) mas basicamente todo mundo que usa banda larga o faz justamente por poder baixar arquivos sem se preocupar com o tempo de transferência. Se um “taxímetro” voltar a funcionar eu certamente vou passar para o plano mínimo (que pelos números da Vesper e Telefônica é aproximadamente um terço do que eu pago hoje, ou seja, prejuízo para eles) e um abraço.

Ainda no papo “nos EUA é assim”, lá o governo mandou as empresas de telefonia abrirem sua rede para que outros provedores pudessem vender o serviço de DSL. Isso não resolve totalmente o problema do monopólio mas é bem melhor do que o cala-boca inventado no Brasil onde os provedores obrigam o usuário a se “autenticar” num provedor de “acesso” antes de poder navegar. O provedor cria um site de “conteúdo de valor agregado” (ou seja, um monte de trailer de filme, rádios online, etc. — que não necessariamente foram criados por eles — para justificar a banda larga, dados os quais teremos que pagar em breve para baixar, nunca é demais lembrar) e ganha uma fatia do bolo. Em troca não se mete no negócio de prover o acesso em si, deixando o caminho livre para a operadora de telefonia cobrar como e quanto quiser de quem precisa estar conectado o dia todo. Eu, por exemplo, sou “assinante” do globo.com mas os meus pacotinhos IP nunca passam pelos servidores e roteadores do plim-plim. Oh sim, eu tenho direito ao tal do Globo Media Center (que eu até acho legal, comparado a outros “provedores banda larga” que não oferecem nada) mas se eu vou ter que pagar a mais pelos bytes consumidos pelos videos do TV Pirata eu prefiro não baixar, obrigado.

E, finalmente, por favor não me venha com esse papo de que uma pessoa que não baixa tantos arquivos está subsidiando os meus downloads. Eu pago o equivalente a US$ 50 por mês pelo meu acesso à Internet, eu acho que é dinheiro suficiente para precisar de subsídios.

O pensamento marketeiro-gerencial funciona assim: Fulaninho da Silva baixa trocentos gigas em mp3 e divx por mês. Vamos colocar um limite de download de 1gb. Trocentos-menos-um a gente cobra por fora. Vamos ficar ricos. Quando o uso cair porque o Fulaninho não quer pagar o excesso de banda eles vão chorar dizendo que o mercado brasileiro não está atendendo às expectativas e por isso precisam aumentar o preço. Aliás eles não vão chorar nada, vão simplesmente aumentar já que não há regulamentação por parte da Anatel.

É claro que a coisa é inevitável. Até o fim do ano todas as empresas de banda larga (que, por sinal, vivem reclamando que não estão conseguindo vendas o suficiente) vão migrar te mandando um “cala boca e paga”. Provavelmente os usuários atuais serão afetados, já que o contrato atual tem uma cláusula que diz que a prestadora pode mudar o valor e o cálculo da cobrança quando quiserem. Não gostou? Cancela a conta e vai pro concorrente. Opa, mas que concorrente? Não tem.


:: Escrito por Cristiano Dias, dia 29 Aug 2003, 12:50, em Liberdade Digital.

10 Comentários

  1. jao

    Amigo Cristiano,

    Vou dizer que adorei o que você escreveu, e acho que, se não houver outra solução, vou acabar largando a vida de internet…

    Bom, ou isso, ou contratar algum serviço de fibra ótica, onde eu gaste todo o meu salário pra ter 64kbps sem limite de download ;) (ahahahahaa)

    É ridículo pensar que a ganancia força a tecnologia a regredir dessa maneira. :(

    Ah, outra solução é sair do país, né? mas ai eu vou acabar gastando muito mais com telefone ehehehhe

    []s

  2. Evilasio

    Concordo inteiramente com você. Minha opinião a respeito disso registrei, assim como você, em um post. Caso deseje ver, e opinar, esteje à vontade.

    É uma pena que as empresas de telecomunicações no BR tenham o pensamento de fazerem dinheiro rápido em cima do sofrido povo, que além da falta de dinheiro tem a falta de opção.

    E ainda dizem que querem a livre concorrência…

  3. Eduardo N Coutinho

    CrisDias mais uma vez acho q vc analisou o caso certinho.

    Hoje provavelmente o trafego por usuario está maior do que eles previam simplesmente pq com o preço cobrado só mesmo heavy users estao dispostos a pagar e por consequencia baixar toneladas de arquivos.

    Se o preço fosse metade do que é cobrado atualmente provavelmente teriamos mais usuarios comuns, com consumo menor e a média de trafego por usuario cairia bastante.

  4. José Antonio Meira da Rocha

    Way to got!

  5. Adriano

    Análise perfeita!

    E a minha idéia seria a mesma do Jao: gastar mais q o meu salário num link dedicado (de 64k!)! :)

  6. Lavi

    Até que demorou para os “empresários” brasileiros copiarem os exemplos estrangeiros que os favorecem. E vão aumentar mesmo os preços se não der o resultado. E a culpa sempre é nossa…

    Aqui na Austrália a maioria dos provedores limita downloads e uploads, mas o maior de todos, da TELSTRA, a telefônica que quase monopoliza o mercado local, explica bem mal que vai cobrar pelos MBs em excesso e tem gente morrendo com contas de mais de mil dólares por mês!!! É meio burrada do usuário, mas essa informação fica escondida dentro do contrato… É o famoso “escreveu não leu…”

  7. Hector Lima

    muito bem explicado mesmo. algum usuário de Speedy aqui já viu como ficou a tela inicial do navegador quando se loga?

    “Caso não esteja visualizando a tela de opção de acesso , verifique se você possui algum ANTI-POPUP ativado ou se o seu navegador é um dos recomendados para uma navegação segura e confiável.

    Internet Explorer 5.0 ou superior Netscape 6.2 ou superior”

    e só dá pra acessar a página depois de se desbloquear os pop-ups pelo menos uma vez [porque a janela que te dá acesso geral é um pop-up]. um atendente do Terra só soube me dizer que é o jeito novo de o Speedy liberar conexão. ou seja, tão colocando mais porta na nossa frente.

    eu quero uma chave mixa.

  8. Marcelus

    Bom, como adquiri meu Speedy em 2001, sou um dos que ainda tem o privilégio de possuir IP fixo e conexão direta 24 horas por dia.

    Mas de tempos em tempos aparece o pop-up para se “logar” ao Speedy — na verdade o que eles querem fazer com isso é conferir se eu continuo pagando meus R$55,00 pelo UOL mensalmente — e se eu ignorá-lo, meu acesso fica bloqueado.

    Bom, sobre tudo o que foi abordado acima, eu gostaria de dizer que os dois maiores problemas ao meu ver são a antigüidade da legislação da ANATEL no que diz respeito ao acesso à Internet e o lobby exxxxperto das telefônicas privatizadas para que a competição total (prevista nos planos do ministro Sérgio Motta) só aconteça dia 30 de fevereiro à tarde, para assim poder preservar o sistema oligopolizado (duopolizado, mais precisamente dizendo) que existe nos dias de hoje.

  9. L.

    Segundo estudo da TeleAfônica, 2% dos usuários Speedy estão sujeitos a pagar pelo excesso de banda.
    Mudar de uma hora pra outra não é vantagem pra Telefônica.

    Não há com o que se preocupar.

  10. Mauricio Junqueira

    Para ser bem direto:
    Comprei meu acesso banda larga da Brasil Telecom pelo telefone. Instalaram e rodei legal pelos últimos 4 meses. Um belo dia…
    Minha grana diminue legal e ainda por cima eles aumento o valor da internet em 16%.
    Penso daqui e faço contas de lá, eu resolvo cancelar o serviço até as coisas melhorarem: SURPRESA!!! Me contam nesse momento amargo que, devido ao artigo sexto do termo de adesão, eu teria de ficar com a internet por mais 2 meses na MARRA!
    Minha ira é o fato de no momento da COMPRA ninguêm pergunta se eu estou sabendo do tal termo, se eu aceito ou nada assim. E mais uma vez voltando ao “lá nos EUA é assim”, lá pelo menos eles tem de ter uma gravação provando que eu aceitei o tal termo!. Detalhe: o PROCOM não quer nem saber.

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