Reloaded

Pílula VermelhaSerá que é possível falar rapidamente de Matrix Reloaded?

Antes de ir ao cinema eu já sabia que muita gente tinha odiado o filme. É uma velha técnica zen minha ir a continuações sem esperar nada, com o nível de expectativa lá embaixo. Foi assim que me diverti em A Ameaça Fantasma (um dos piores títulos da história do cinema). Dentro do cinema vendo Neo voar e ensopapar seus inimigos eu só sabia dizer urru! arrá! ueba!… você sabe, uma criança andando de montanha russa. Pra mim cinema é sempre a maior diversão.

Mas já do lado de fora, me acabando num milk-shake de Ovomaltine comecei a entender a ira dos tais dos puristas. Eu odeio puristas (um filme é só um filme) mas conseguia sentir a dor deles. Reloaded mudou o rumo de Matrix. Como bem disse o Rafa na Revista Bala, O novo filme é fantasia. Não é mais ficção-científica. E, quando tentam grudar algo “científico”, não encaixa.

Cheguei em casa e li o texto do cartunista Scott Kurtz (cheio de detalhes sobre o filme, só leia na volta do cinema) que ponto a ponto foi detonando o filme. O pior é que eu fui concordando com cada um, fui dando forma à estranheza que senti na saída do cinema. Por eu comentar o lado ruim você vai achar que eu detestei o filme, mas não é bem assim. Deve ser porque eu gosto de falar mal das coisas. Quem sabe semana que vem eu não escrevo um outro texto só falando das coisas boas de Reloaded? Mas por enquanto fiquemos com a parte ranzinza.

As lutas… Neo agora é super-poderoso. O novo personagem Link chega a brincar: “Ele está lá fora bancando o Super Homem”. Um dos problemas dos roteiristas do homem de aço é justamente encontrar um inimigo novo a cada mês. Ele é o Super Homem! Quem pode com ele? Se no primeiro filme Neo tinha que lutar pela vida e por seus companheiros agora ele luta para ganhar tempo, para satisfazer seu ego e, acredite, até mesmo para provar que ele é ele. Se você editasse o filme e tirasse todas as cenas de luta ele ainda seria razoavelmente compreensível. No primeiro filme a única luta “inútil” é a do dojo, contra Morpheus, mas até mesmo essa serve com um tipo de auto-conhecimento. Em Reloaded as lutas são maiores, mais espetaculares, mais bullet-time, mais tudo, mas não parecem servir a um propósito. Inclusive a melhor cena de luta do filme (e uma das melhores cenas de ação da história do cinema) é justamente de Morpheus e Trinity, sem Neo, na auto-estrada. Eles são “só humanos”. Eles sangram, eles têm algo a perder. Se eles falharem é game over. Eles não podem sair voando quando o bicho pega. Em Reloaded, como bem disse Scott Kurtz, as lutas parecem um videogame: Level one, FIGHT! Cut scene. Level 2, FIGHT!, cut scene. Level 3, FIGHT. Find the Keymaker. Level 4, the car chase level. Cut scene. Level 5, FIGHT, enter the source. Beat the boss. End credits.

A coisa chega ao absurdo de Neo enfrentar um cara que no meio da luta diz “OK, chega. Agora eu tenho certeza que você é você mesmo.” Neo, com sua cara altamente expressiva só pode responder: “Não era mais fácil perguntar.” no que o adversário responde com uma das muitas frases filosóficas do filme. Escolha, destino, casualidade, causa-e-efeito, porquê. Se Matrix era “quem sou eu” Matrix Reloaded é “o que estou fazendo aqui”.

Só que Reloaded, por ser continuação, sofre do mal do mais. “Precisamos de mais lutas, mais efeitos, mais agentes Smith.” É um beco sem saída. Neo é o Predestinado, o que mais lhe resta? Ficar sentado em rodinhas intelectuais discutindo simulação-e-simulacro? Mais ação, mais explosões, mais bullet-time. A melhor segunda-parte-de-trilogia de todos os tempos, O Império Contra-Ataca nos ensina que nem sempre mais é melhor.

Todo mundo está mais caricato e, francamente, o Morpheus está um saco de tão canastrão e fanático-pelo-messias. Sabe aquela parte do trailer onde ele pergunta se “isn’t that worth dying for”? Sabe aquele tom de voz de locutor de anúncio de sabonete líquido? Ele fala assim o filme todo. Logo na sua primeira cena ele “conversa” com Link num tom tão profético que eu fui obrigado a me perguntar se o Morpheus do primeiro filme era assim. Vai ver era…

E os efeitos especiais… sempre os efeitos especiais. Se você quer saber eu acho que o excesso de dinheiro estragou os efeitos especiais de Reloaded. Em uma frase: eu odeio dublês virtuais. Você consegue fazer Neo voar e girar e chutar traseiros gordos de seus inimigos mas não é um ator, dá para ver. Então por favor engavetem essa tecnologia até não ser possível notar a diferença. Eu não sou de ficar catando erro em filme mas só não vê quem não quer que ali é um “boneco computadorizado”. Pra piorar eu tenho o documentário Matrix Revisited e sei como é a cara do dublê do Keanu Reeves. Mas isso sou eu sendo purista.

Então eu odiei o filme, certo? Nada disso, recomendo o filme e vou ver de novo em breve, de preferência acompanhado do amigo-e-dublê-de-cunhado que fez questão de me ligar de SP na saída da pré-estréita para dizer um sonoro “maneeeeeeiro”. Só faça como eu, baixe a bola e vá em busca de uma boa diversão.

Nos vemos em novembro, com Matrix Revolutions.

PS: Eu gostei mais dessa trilha sonora do que da do primeiro.

PS/2: A comédia da sessão ficou por conta da legenda, que informou que “Matrix Reloaded” significa “Matrix Reloaded”. Valeu dona legenda.


Reloaded

Whoa.


:: Escrito por Cristiano Dias, dia 23 May 2003, 12:18, em Cinema.

6 Comentários

  1. milhouse

    Só para constar que gostei dos efeitos..
    Foi um filme fantastico, mas…

    Ahh, seu blog é legal demais..

  2. Zé Antônio

    Fala Crisdias! Ainda não falei com você depois da sua volta. Seja bem vindo meu caro!
    Também sou daqueles que vão ao cinema com o coração desarmado, mas já estou me preparando para o pior. A Cora Ronái viu o filme e fez um comentário hilário: “… mas eis que Morpheus (um dos heróis da trama) se dirigiu aos cidadãos de Zion conclamando-os à resistência, e aquela massa suarenta e compacta, vestida em trajes exíguos, explodiu num gigantesco… baile funk! Ora, tenho certeza que MC Serginho e Lacraia vão vibrar com a cena, mas eu, sinceramente, fiquei muito contrariada. “

    Abraço!

  3. Marcos Fontes

    Pra quem não sabe, hoje vai passar “O Voô Final de Osíris” no SBT, que é um dos Animatrix. Dizem que é depois do repeteco do primeiro Matrix. Vale à pena conferir…

  4. Pedro

    Eu sabia, eu sabia!!
    Mas não importa, vou ver só por desencargo de conciência, mas acho que não vou gostar não.
    Ah propósito, é impressão minha ou o Zé Antônio escreveu aí em cima que está contrariada?

  5. Rafa

    Porra, eu achei o filme ducaralho, sensacional. Só quis dizer na resenha que o que todo mundo esperava que ele continuaria do primeiro é decepcionante. Mas nem por isso é ruim. Nunca vi um filme de ação com tanta, ahn, ação! Muito bom. E eu também tenho essa técnica zen de não esperar nada e acabo me divertindo com tudo. Mas é que sou chato mesmo, então meu cérebro não processa elogios, apenas críticas.

  6. Glacial, O Último Kryptoniano

    Rapah .. o filme é bom. Na verdade é ótimo. Mas comparado com o primeiro fica muuuuuuuito a desejar.

    P.S.: Concordo com 100% das suas opniões sobre o filme.

  7. Valdir [La_Conección]

    Apesar de concordar com algumas das
    opniões apresentadas… lá vai!

    Sugiro uma nova “leitura”, já que
    discordo um pouco dos que simplesmente
    separam a análise de “Matrix-1999″
    de “Reloaded-2003″, levando em
    consideração algumas das máximas da
    montagem cinematográfica* (”dois
    pedaços de filme colocados juntos
    inevitavelmente criam um novo
    conceito, uma nova qualidade, que
    surge da justaposição…”, “o todo é
    mais do que a soma das duas partes” e
    “em toda justaposição o resultado é
    qualitativo”) tudo isso toma nova
    forma não? o que vcs acham?

    Um Abraço a todos!

    *Serguei Eiseintein
    O sentido do Filme (1942)

  8. Mateus Donato

    Concordo com praticamente tudo que o Cris falou, assim como com quase tudo que o Kurtz disse também. Esse filme me decepcionou muito, poucos dias depois de ver X-Men 2, uma das melhores seqüências já feitas, sou surpreendido por um filme tão… regular. De regular pra baixo. Porque até que teve boas coisas, mas em geral foi ruim. A pior coisa foi, sem dúvida, a festa-rave-baile-funk-orgia de Zion.

  9. BBJuanito

    Fala, Cris!
    O mal foi ter ficado lendo coisas negativas na internet antes de ir ver o filme. Já entrei ‘carregado’ de más impressões. E tem algumas partes que ficaram muito forçadas. A sequência da luta com os capangas do ‘melagrião’ (como é mesmo o nome dele? ah, o que pega a Persephone- essa sim, dilícia) foi muito exagerada, com gente andando pelas paredes, coisa-e-tal. E o papo cabeça com o Arquiteto foi chato bragarái. E tem uns nerds que viram uma cena de Mad Max naquelas telas da sala do velhinho. Quá. Como filme de kungfu: 9. Como sequência de um dos melhores filmes da década passada: 3.

  10. Ronaldo

    Para discordar, eu acho que essa seqüência do Matrix está à altura da anterior em todos os aspectos — e não digo isso pelas cenas de ação, que são excelentes por sinal. Enquanto o primeiro filme foi Matrix sob a ótica do Morpheus, com todo o fanatismo dele, esse novo filme abre o campo de visão e mostra um quadro ainda mais interessante.

    As referências também são muito boas e tocam em várias das mais famosas obras de filosofia e ficção científica do século. Os detalhes também são sutis e realmente é necessário ver o filme mais algumas vezes para ter um boa idéia do todo.

    Eu ainda vou escrever mais sobre o assunto, mas o fim de semana foi terrível (incluindo um belo assalto) e não deu tempo de comentar nada. :-)

  11. Gustavo Romero

    Depois que eu li a crítica do , várias fichas caíram e eu acabei achando o filme muito bom, com sacadas super inteligentes. Vale à pena ler:
    http://www.cinema.art.br/crit_editor_filme.asp?cod=224

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