Kottke e a guerra
Jason Kottke, dono de um dos weblogs mais lidos do mundo, sumariza seus pensamentos sobre a guerra e coincide com 99% do que eu penso: a coisa é tão complicada que um artigo sobre a atual situação teria que ter como título “A História da Humanidade: de 5000 AC até dois minutos atrás”. E mais: justamente por causa desta complicação toda a guerra é sim invetivável. Saddam Hussein é mal, as desculpas do Bush esfarrapadas e os países que se dizem que é contra a guerra “em nome da paz” são tão hipócritas quanto Bush. Todo mundo quer é dinheiro no bolso.
Ele ainda levanta a bola de que talvez todos devêssemos assumir nossa hipocrisia e encarar isso como uma coisa normal. Hipocrisia é que nem cocô: todo mundo faz mas finge que não. (comparação minha, não dele é claro)
Para terminar, uma citação que fala de um tema talvez óbvio demais: de que a imprensa quer mais é a guerra, afinal de contas o que importa para ela é vender jornal/anúncio/assinatura e que esse papo de que “a verdade está nos weblogs” é forçar a barra um pouco demais. No fundo no fundo todo mundo quer é aparecer. (começando por este que lhe escreve)
- Journalism has always been — and still is — about money. Selling newspapers, magazines, fizzy water, cable television subscriptions, etc. Reporting and analyzing the news fairly and accurately is a secondary concern, if it’s a concern at all. Believing that things have ever been otherwise is naive.
Most of the news you see on TV is marketing (at the local level, it’s all marketing). Cable news networks have been selling this war for months. War is good for them and it’s in their best interests to help egg Bush on. Brian Williams live from Kuwait is going to make more money for MSNBC than a report on the huge scam that is the American health care system.
Weblogs are supposedly the antidote to this. With some very notable exceptions (journo Kevin Sites blogging live from Iraq and this Iraqi’s personal weblog), this just isn’t true. Most webloggers “covering” the current situation are either peace advocates unwilling to enter into a debate (see above) or too busy whipping each other into a hawkish frenzy in the pursuit of getting linked, being seen, driving up page views, and trying oh-so-hard to scale Mt. Instapundit. (Probably going to get some mail about this one.)
não acredito que a guerra seria “invetivável”
Cris, entendo o seu pessimismo, mas não concordo com você. Eu me permito não ver a guerra como normal e inevitável.
Há uma certa confusão entre hipocrisia e ingenuidade. É claro que não é por pacifismo que a França resiste à guerra, mas acho que Chirac tem todo o direito de defender os interesses franceses, aliás tem o dever, porque é pago para isso, assim como Bush deve defender o interesse dos EUA. Mas é inadmissível que essa defesa seja feita às custas de vidas ALHEIAS (porque os ministros e presidentes nunca morrem na guerra). Ou nós acreditamos nisso, ou não podemos nos considerar uma civilização. Se partirmos do pressuposto de que somos todos hipócritas, acharemos que somos todos iguais, eu, você, o Alexandre, os demais leitores do seu blog, o Saddan e o Bush. E se somos todos iguais, não há diferença entre nós e qualquer assassino que tem milhões de mortes em seu currículo. Tenho certeza de que você não pensa assim, apenas se deixou levar pela indignação.
Essa guerra, Cris, era evitável. Inevitável era a 2ª Guerra Mundial.
Permita-me debater algumas ideias. As frases sao um pouco confusas e embora algumas delas realmente parecam fazer sentido, quando tomadas como consequencia uma da outra levam a conclusoes, no minimo, discutiveis. Primeiro, porque e admissivel, embora triste, que na carencia ou falha de outros metodos, a defesa de interesses seja feita a custa de “vidas alheias”. Pelo meu entendimento, todas as guerras ja travadas ate agora, tomado o termo, foram as custas de “vidas alheias”. Nao me lembro de nenhuma guerra em que os ministros, reis e presidentes sairam uns contra os outros, sozinhos, sem suas tropas e cavalarias. E todas as guerras entre nacoes civilizadas foram pelo bem do interesse nacional, segundo o seu governante. Isso nunca fez nenhum povo menos civilizado que o outro. A guerra tem a caracteristica da selvageria, frouxamente dependente do nivel de civilizacao dos combatentes.
Ha de se ter um cuidado no termo “vidas allheias”. O que siginifica? Toda vida que nao e a minha? A do governante? Outras que nao as nossas? E o que sao as “nossas”?
Ademais, a inducao final e falsa pois sim podemos ser todos hipocritas e ainda sermos diferentes. Saddan e hipocrita, Bush tambem e nem por isso sao iguais. Nao eh partindo de um pressuposto tao particular que se chega a uma conclusao de tal envergadura. Isso ‘e falacia. E falacia conhecida. Chama-se declive escorregadio.
E por fim, essa guerra era tao evitavel ou inevitavel quanto qualquer uma. O momento historico e outro, os combatentes sao outros, a opiniao publica e suas motivacoes sao outras, mas a hipocrisia, alheamento, e ingenuidade, ah, essas sao as mesmas de sempre.
Vidas alheias são, exatamente, as dos outros, pois é muito mais simples declarar ou defender uma guerra quando eu não vou sofrer as conseqüências físicas do conflito.
E dizer que essa guerra era tão evitável quanto as outras porque “o momento histórico é outro” é, aí sim, uma falácia, que eu não rotularia como “declive escorregadio”, mas como um sofisma. Trata-se de uma justificativa etérea, vaga e destituída de maior significado, e por isso mesmo perfeita para defender qualquer atrocidade ou imoralidade, ao sabor dos interesses do governante de plantão. Aí sim se identifica a hipocrisia.
Enfim, parece que o texto acima só corrobora minhas idéias “confusas”.
Obviedades. O termo vida alheia so pode ser empregada a outrem. Duvidem se escutarem falar de uma guerra de um homem so. Nao existe viu? Novamente, toda guerra se da a custa de vidas alheias.
Outra. Declarar ou defender uma guerra so e “simples” para quem nao tem nenhuma responsabilidade com o conflito. Declarar guerra ou defender uma posicao, seja ela sobre um conflito ou uma ideologia ja arroga essa responsabilidade, portanto nunca e “simples”.
Mais. Nao estabeleci relativismo. Nao foi criada nehuma condicao de causa entre momento historico e guerra evitavel. Vou repetir. Primeiro, essa guerra era tao evitavel quanto qualquer outra, diante dos parametros elasticos da discussao. E (observe o uso do “e” e nao do “pois”) o momento historico e outro (alguma duvida?) e (novamente) a ingenuidade e hipocrisia sao as mesmas. Uma coisa nao e consequencia da outra.
Mais uma. Sofisma nao e um tipo de falacia e sim um sinonimo. Ja declive escorregadio e uma categoria de falacia. Nao ha sofisma no que foi dito pois as frases carregam ideias distintas. Se eu escrever que todo homem morre e depois escrever que todo homem respira, nao creio que ninguem vai achar que todo homem morre porque respira.
Afirmo, ao contrario do que foi dito, que todos podem sim, ser hipocritas e isso nao faz com que todos sejam iguais. A inducao e falha. Uma coisa nao da argumento para a sustentacao da outra.
Se sofisma é sinônimo, só pode sinonimizar engodo. Que é sinônimo de falácia. Uma forma de dizer mentiras falando verdades. Com floreios e delicados ardis.
Assim como você identificou “declive escorregadio” em meu texto, permita-me apontar sofisma no seu. Quem julga deve estar preparado para ser julgado, caro Vladimir.
Da mesma forma, é meu direito ser contra a guerra, e seu direito defendê-la. Que tal deixar aos eventuais leitores a missão de nos julgar?
Nao. Errado de novo. Engodo nao e sinonimo de falacia. A primeira apela a argumentacao, embora com conclusoes suspeitas, a segunda a adulacao e a vaidade. Aconselho uma nova consulta a um dicionario. Falacias, como dizer que se “somos todos hipocritas, somos todos iguais” induzem a um erro. Nao sao mentiras per si, mas erros de raciocínio ou de argumentação. Existem varias categorias e subcategorias de falacias. As falacias de dispersao (falso dilema, declive escorregadio, apelo a ignorancia e pergunta complexa) talvez sejam as mais conhecidas. Para saber mais sobre o assunto, por favor, alem do dicionario, consulte Rescher, Nicholas. Introduction to Logic. St. Martin’sPress, 1964. Sera uma boa leitura.
Ficar explicando como usar ferramentas argumentativas e muito macante. Atrasa o debate real.
Outra coisa, defendo, endosso, e acredito no direito de qualquer pessoa de pensar livremente. No entanto acho que fui mal compreedido. Nao sou a favor de guerra nenhuma. Affirmei que a guerra e selvagem e triste, mas ainda digo que e admissivel. Estou tentarndo defender um ponto mais abstrato aqui. Em particular, a invasao do Iraque me parece um erro diante das informacoes que disponho.
Vamos todos acabar com essa bobagem de ser contra alguma coisa e sim ser mais serios nos debates.
Por fim, o julgamento de quem quer que seja me interessa muito pouco. Tenho responsabilidade pelo que eu falo e temho prazer no dialogo. Ainda espero que o sofisma do que tenho escrito seja revelado.
Alguém tem um aurélio por aí?
Eu tenho, Glacial. E no Aurélio, sofisma tem diversos significados, entre eles “argumento aparentemente válido, mas, na realidade, não conclusivo, e que supõe má fé por parte de quem o apresente”. Algo que muito se aproxima do ato de engodar (“enganar com promessas vãs, engabelar”). Sofisma que se percebe perfeitamente no raciocínio: “essa guerra é tão evitável ou inevitável quanto as outras; o momento histórico é outro, os combatentes são outros; a opinião pública e suas motivações são outras.” Todas as frases, isoladamente, são verdadeiras (“o momento histórico é outro” etc.), mas não conduzem a conclusão alguma (“é tão evitável ou inevitável quanto as outras” – afinal, é evitável ou inevitável?). Só mesmo na perspectiva formalista ou hipócrita de alguém o sofisma não é uma falácia. Ainda mais porque o formalismo parece ter dominado este debate, de modo que o conteúdo em si (a guerra no Iraque, suas motivações e conseqüências)foi relegado a segundo plano. O tecnicismo semântico (falácia é isso, sofisma é aquilo, declive escorregadio é isso e aquilo), as filigranas lingüísticas e as minúcias e sutilezas conceituais parecem importar mais do que a questão debatida. Não creio que isso seja ser “mais sério no debate”, até porque o que presenciei, até aqui, é a dubiedade proposital, uma verdadeira demonstração prática de anti-comunicação. Aquilo que Theodor Adorno chamou de “encruzilhada da magia e do positivismo”: sobrepor palavras prontas à descrição dos fatos. Só agora, por exemplo, descobrimos que o autor do texto acima acha a guerra no Iraque um erro, não necessariamente por equívocos de interpretação, mas pela absoluta falta de clareza e proposital e maliciosa ocultação de seu posicionamento. E se é assim, ao menos esse mesmo autor do texto acima conseguiu demonstrar o que queria, ao me exortar a ser mais sério no debate: de fato, reina no mundo a hipocrisia.
Na boa, esse papo-dicionário está tão chato que nem eu estou acompanhando mais.
Tem razão, Cris. Já entendi o recado. Tô fora.