Beira-mar

O Prefeito Maluquinho saiu por aí declarando que o Fernandinho Beira-Mar, essa figurinha simpática aí, deveria morrer.

Ele veio com o já batido papo de que Direitos Humanos só pra quem respeita, blablabla, bandido bom é bandido morto, não vai ser reabilitado… papo de aproximadamente 39 anos de idade, se é que você me entende.

Só que a coisa não é por aí. A discussão não precisa nem chegar no lado dos Direitos Humanos e todo o resto. Eu posso virar e dizer — com ódio por ver o Brasil citado em jornais do mundo todo como “à beira do caos” — que o Beira-Mar merecia morrer. Você pode bravejar que o que ele aprontou não se faz, que ele é muito abusado e que nenhuma prisão vai consertar seu “gênio do mal”. Mas o que “nosso” Prefeito se esquece é que ele é, justamente, prefeito de uma das maiores cidades do Brasil e que como tal deve impor, no mínimo, respeito pelas leis. Extrapolando para explicar o argumento: se o Prefeito acha que a lei deve ser desrespeitada (ou mudada) e Beira-Mar morto por não ser digno da lei eu também não vou pagar meu IPTU porque acho que a Prefeitura não usa o dinheiro do povo direito. A lei e a ordem são as únicas coisas que garantem que César Maia vai administrar o Município do Rio de Janeiro por 4 anos. O Prefeito, portanto, devia ser o primeiro a defender essas tais de lei e ordem, mesmo que todo o povo peça a cabeça do sujeito, seja ele o traficante que mandou o bicho pegar ou um pobre inocente.

Mas convenhamos, Fernandinho Beira-Mar é o Osama Bin Laden do Rio de Janeiro. Você só gosta dele se for Talibã. Aí é que vem a parte boa da história: criticar o Bush por invadir o Iraque pelos motivos excusos dele é fácil, mas na hora que a bagunça é em casa o coro é pra botar o exército na rua e subir o morro. No melhor estilo Jorge Bush o Secretário de Segurança Josias Quintal diz que “Nosso bloco está na rua. Se tiver que ter conflito armado, que tenha.”

Em primeiro lugar isso pra mim se chama declaração de guerra aberta. Ao invés de trazer quem mora nas favelas para o lado “da lei” ele diz que a lei não está muito preocupada com eles não, que assim como os Afegãos pagaram pelo mal do Bin Laden os favelados vão pagar pelo mal dos que tomaram o poder das “comunidades” no vácuo deixado pelo governo oficial. Sempre se disse que o governo só vai na favela em época de pedir voto e que os traficantes — com sua justiça torta de Zé Pequeno — é que cuidam dos favelados. O Secretário assinou embaixo.

Em segundo lugar Fernandinho Beira-Mar tem uma diferença fundamental de Osama Bin Laden: Beira-Mar está preso e sob “controle” da polícia e do governo, mas isso obviamente não o impediu de orquestrar o motim de segunda-feira. Então, senhores governantes, não era responsabilidade sua manter o mal-elemento isolado? A solução para sua ineficácia na tarefa de ter uma polícia decente que consiga ficar longe de corrupção e mantenha o sujeito incomunicável é matá-lo? Por favor, deixem os Direitos Humanos em paz.


:: Escrito por Cristiano Dias, dia 27 Feb 2003, 21:53, em Brasil-sil-sil.
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