Rael, Eva e Adão

E no clone, nada?

Disparado o assunto da semana foi Eva, o clone. (putz, que nome de novela da Record sensacional!)

O incrível, como bem ressaltou o cunhadão, foi a comunidade científica internacional e os governantes terem se limitado a dizer “eu não acredito que eles tenham clonado mesmo”. Tá, mas e daí? Não clonaram hoje, podem clonar amanhã. Querem abrir uma filial da Clonaid no Brasil e maluco é o que não falta para se candidatar.

Essa história é, obviamente, complicadíssima e eu já andei comentando sobre o assunto por aqui. Eu, particularmente, estou muito mais preocupado com os designer babies (bebês projetados em laboratório, a la Gattaca) do que com clonagem, mas isso é papo para outro texto. Minha maior preocupação com clones é a cabeça dos clonadores (os pais) e dos clonados. Até quem é à favor de clonagem concorda que o procedimento — por todas as complicações técnicas envolvidas — é um último recurso. Quem mais defende a clonagem são pessoas que já tentaram todas as outras formas possíveis de ter um filho e não conseguiram. Essas pessoas, então, não são normais — e eu não estou dizendo isso de uma maneira pejorativa. Já passaram por um estresse ou discriminação incríveis. A carga emocional em cima dos pais e das crianças é enorme. Junte nesse grupo os malucos de verdade (aparentemente um pré-requisito para ser raeliano) que querem clonar filhos que morreram, seus próprios pais ou até mesmo clonar a si mesmos para atingir “a vida eterna” (a missão da clonagem para os raelianos como dito no próprio site da Clonaid) e o futuro dessas crianças fica sombrio.

Three years ago, Raël, (…) founded Clonaid, the first company offering to clone human beings. In this book, he explains how today’s cloning technology is the first step in the quest for eternal life.

Once we can clone exact replicas of ourselves, the next step will be to transfer our memory and personality into our newly cloned brains, which will allow us to truly live forever. Since we will be able to remember all our past, we will be able to accumulate knowledge ad infinitum.

Imagine, então, a carga emocional de uma criança “ressucitada” com a clonagem. O problema está justamente no fato de que ela não “voltou dos mortos”, é simplesmente uma outra criança que se parece fisicamente com a primeira. É impossível não imaginar um pai que clonou um filho que, digamos, morreu em um acidente virando para o novo filho e dizendo: “Você gostava muito desses brinquedos aqui.” ou “Esse era o seu programa de TV favorito, nós gravamos todos os episódios para você.” É assustador tentar se colocar no lugar dessa criança, mas qual pai não gostaria de ter seu filho de volta? Pegue a crise de insegurança e ciúme que irmãos sentem (”você gosta mais dele do que de mim”), multiplique pelos problemas de identidade que adolescentes hoje em dia passam (”meus pais querem que eu seja algo que eu não sou”) e adicione uma pitada dos problemas que gêmeos univiterinos encontram e você tem uma bomba nas mãos.

Mas, é claro, os raelianos não querem saber disso. Aliás eles não estão nem preocupados em provar que Eva, o primeiro clone, é um clone mesmo. Já avisaram que não vão obrigar os pais de Eva a fazer testes de DNA. Até que ela seja velha o suficiente para que se possa no mínimo comparar uma foto sua com a da mãe o caso (ou melhor, a fama da Clonaid) já vai ter esfriado e eles terão conseguido milhões de dólares de pais que passaram por uma vida de sofrimento pela perda de um filho ou simplesmente pelo fato de nunca conseguirem ter tido um, mais ou menos como as empresas de criogenia lucram em cima dos seus clientes atualmente. Pouco importa para os raelianos e a Clonaid se Eva é um clone real ou não, o que importa é a “mídia espontânea” em torno do caso. É melhor anúncio “ligue agora e ganhe um clone do seu gatinho grátis” que se pode ter. 99% do mundo pode repudiar o que eles estão fazendo, mas se 1% se converter para a seita (auto-proclamada a maior organização ligada a OVNIs no mundo, o que nunca pode ser coisa boa) eles já vão ter garantido um lucro absurdo e mesmo que Rael não ganhe a vida eterna ele vai ter uma vida muito confortável daqui para frente.

Rael conta:

Autoproclamado “apóstolo” da clonagem na Terra, ele diz fazer parte da missão que lhe foi confiada pelos extraterrestres, após um encontro em 1973 na cidade de Auvergne, região central da França.

Nesse dia, pequenos visitantes verde-oliva, de 1 metro e 30 centímetros de altura, contaram que os seres humanos foram criados em laboratório há 25 mil anos.

Então, ora bolas, se somos todos clones criados por aliens por que não somos todos baixotes de pele verde-oliva, “a imagem e semelhança” de nossos criadores.

Não há a menor dúvida de que a “religião” dessa figura é um embuste, mas isso não resolve a questão maior: a Clonaid tem ou não tem tecnologia para clonar alguém? A resposta é simples: tanto faz.

Tanto faz porque se a Clonaid não tem alguém vai ter ainda esse ano, dizem praticamente todos os especialistas em clonagem do mundo, inclusive aqueles negando o feito da Clonaid. É isso que importa, os clones vão virar uma realidade em breve, assim como os bebês de proveta que anos atrás eram vistos como aberração-da-ciência são vistos hoje como coisas normais. Um último recurso para quem não consegue engravidar, mas uma operação corriqueira e aceita por todos.

É justamente a discussão do lugar dos clones na sociedade que devia estar sendo feita mas todo mundo prefere deixar para lá. Será que vamos ter que esperar até Eva fazer 18 anos e precisar tirar carteira de motorista para começar a pensar no caso?

Pessoas vão ser clonadas e vão ser discriminadas por isso. Igrejas vão dizer que elas não têm alma. Seus pais, mesmo que inconcientemente, vão comparar seus filhos clonados com a pessoa-matriz original (qual pai não procura no seu filho “normal” traços de si mesmo?). Coleguinhas de escola vão chamá-las de aberração. São coisas da vida, nós agimos assim com gente muito mais “normal” do que um clone. Mas ninguém parece se importar com isso. Colocam a etiqueta de “absurdo” e “impossível” e a vida segue.

É preciso encarar a clonagem de frente, para que ela saia das seitas malucas e seja feita (e acompanhada depois de feita) por gente séria e não gente que vai criar uma pessoa como uma espécie de messias. (chamaram a garota de Eva, o que mais você quer?) Um governo virar e dizer “eu proibo” não faz nada além de empurrar o problema para debaixo do tapete. Os clones são uma questão acima da ciência e da religião, mas infelizmente foram relegados a uma discussão fez-não-fez, talvez porque isso seja mais fácil de digerir e venda mais jornal.


:: Escrito por Cristiano Dias, dia 5 Jan 2003, 23:27, em Estes cientistas e suas maluquices.

8 Comentários

  1. Franque

    A alguns anos atrás saiu uma edição especial da revista do Super-Homem (não riam!!!) intitulada “Krypton” que falava que o real motivo da destruição de Krypton foi uma guerra planetária para decidir se os clones tinham ou não almas. A maioria do povo defendia a idéia que eles não tinham alma, e só serviam para “alongar a vida”, eternamente, das suas “matrizes”. Mais ou menos como defendem os Raelianos.

  2. Paulo Albuquerque

    Dá uma lida na Veja.com.br desta semana, que tem uma matéria super-louca sobre os raelianos. Aliás, tem umas coisas super malandras. Esse rael bolou uma divisão só de mulher boa para atender os extraterrestres quando eles vierem (e enquanto eles não vem, treinam com ele.. ha ha ha)
    Todo o dia nasce um novo otário!

  3. Alexandre

    Mais importante que tudo nesta discussão é a idéia de colocar uma segunda pagininha para continuar posts longos. :-)

  4. Helenice A.Dias

    Essa seita tá pertinho de você, em Quebec - Canadá. Ontem mostrou no Fantástico.Cuidado!!!!!!

  5. Cristiano Dias

    E desde quanto Winnipeg é pertinho de alguma coisa? :-P

  6. Mateus

    Rael não é TÃO maluco assim! Há muito tempo eu conheço essa seita (não sou membro nem acredito neles, mas sou um curioso) e isso que você falou das diferenças entre os elohim e os humanos, é justificado pelo Rael. Aliás, é uma parte importante da religião deles. Não lembro bem como é, mas ele fala algo que tem até no site, sobre os humanos terem evoluído de modo que os elohim não previam, e por isso terem se tornado tão diferentes a ponto deles temerem um conflito quando os elohim fossem revelados aos humanos. Aliás, a função do Rael é justamente impedir isso. Por enquanto acho que a Clonaid será importante porque vai forçar um avanço científico, mas fora isso, realmente a clonagem pode trazer muitos problemas. E o nome “Eva” é apenas o modo como a seita se refere à menina, não é o nome verdadeiro dela. Aliás, outra coisa: não acredito que ela chegue aos 18 anos. Provavelmente em pouco tempo vai acabar morrendo pela clonagem não ser perfeita. Ou então por não ter uma alma, como podem dizer os religiosos!

  7. Marcelus

    É interessante ver como ainda há tanta gente que considera que clones seriam “cópias” , e ainda por cima “desalmadas”(!) de seus “originais”.

    Tecnicamente falando, o clone nada mais é do que um irmão gêmeo artificial: ele terá o mesmo genoma, mas tempo e as circunstâncias externas certamente o farão uma pessoa diferente.

    Afinal de contas, essa diferenciação inclusive acontece com gêmeos idênticos, que nascem no mesmo dia e são criados pelas mesmas famílias.

    Off-topic: caramba, sempre me espanta como tantas pessoas se recusam a acreditar que o Homo sapiens petence à ordem dos macacos e ficam achando que os humanos descendem de ETs, do barro, de deuses, etc…:-D

  8. Sol

    O seito assuta-me e tambem a ideia da clonagem reprodutiva. Ja somos muitos no mundo e ha muitas criancas que os casais inferteis podriam adoptar.
    Sol, Escocia

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