Simples?
Eis que o presidente FHC antes de sair do trono vetou o projeto do SIMPLES para empresas de informática. Quando o país devia estar incentivando o desenvolvimento de software para ser usado como produto de exportação ele prefere meter o olho na indústria com o estigma de “o dinheiro está na informática”. Segundo o governo mais de 1 bilhão de Reais seriam perdidos na minireforma tributária como um todo. Um dia esses caras vão acordar que é muito mais fácil exportar software e “cabeças” do que soja e café, mas talvez isso só aconteça quando os analistas de sistemas tiverem um lobby tão grande quanto o dos usineiros da cana de açúcar.
Mas FHC tocou numa ferida importante do setor: a esmagadora maioria de “empresas de informática” no Brasil é composta de apenas uma pessoa. O famoso “prestador de serviços”, ou simplesmente PJ para os íntimos (Pessoa Jurídica). Para que a empresa contratadora escape justamente dos impostos eles “sugerem” que você abra sua empresa e passe a cobrar não como funcionário, mas sim como fornecedor. Balançam um bife na sua cara com o nome de “o dobro do salário” mas tudo acaba sendo corroído pelos tais dos impostos. Essas empresas, então, acabam nem sendo empresas de informática de verdade. Não têm sede (que é na casa do dono), só têm 1 cliente e assim vão burlando os impostos que agora justamente querem aliviados. O mais incrível é que a justiça trabalhista não permite esse tipo de prática: qualquer PJ que processar seu “cliente” ganha a causa fácil e leva para casa todos os benefícios que não recebeu durante os anos. Mas aí, claro, queimou seu filme no mercado e nunca mais trabalha para ninguém. Então a coisa vai continuando como está e fica mais fácil reclamar do governo (que já tem as costas largas no Brasil mesmo) do que das empresas que não querem fazer a coisa como deve ser feita. E antes que digam que fazem assim por pagarem muitos impostos eu vou lançar uma questão galinha-ou-ovo: os impostos são altos no Brasil porque todo mundo sempre arruma como não pagar, seja sonegando seja arrumando uma brecha.
Em tempo: FHC liberou o IPI da fabricação de computadores. Ou seja, para o governo (só para o ex-governo?) é mais importante ser montador de computador do que criador de software. Com todo o respeito aos “fabricantes” de computador (que, todo mundo sabe, no Brasil só juntam peças importadas) é muito mais importante para o Brasil criar software, criar “inteligência” do que uma grande linha de montagem, uma grande Taiwan. É claro que com computadores mais baratos mais gente tem acesso à tecnologia, blablabla, mas isso para mim é mais demagogia do que medida de efeito real.
Balançam um bife na sua cara com o nome de “o dobro do salário” mas tudo acaba sendo corroído pelos tais dos impostos.
Na verdade os impostos pagos pelo funcionário PJ chegam próximo de 50% dos descontos de um funcionário com carteira assinada – ou seja, apesar de tudo há vantagens em trabalhar como PJ.
Não têm sede (que é na casa do dono), só têm 1 cliente e assim vão burlando os impostos que agora justamente querem aliviados.
Bem, eu não faço parte do grupo que está burlando impostos, os da Concatenum.com S/C Ltda. são pagos rigorosamente em dia senão as multas exorbitantes de 20% acabariam comigo
Se o funcionário PJ emitir a nota fiscal para o seu cliente e sonegar o imposto devido, certamente cairá na malha fina da Receita Federal na época de declaração do Imposto de Renda – declarando ou não – e na auditoria periódica da Secretaria de Finanças do Município. Tentar burlar isso sai mais caro do que simplesmente pagar os impostos.
Funcionários PJ não necessariamente possuem apenas um cliente, podendo até fornecer notas fiscais para trabalhos free-lance. Outra vantagem é que no caso de um corte de pessoal é mais fácil de negociar uma sobrevida no emprego, como trabalhando apenas meio-período por um valor menor sem burocracias trabalhistas.
Em tempo: note que nenhuma brecha na legislação está sendo explorada; não há absolutamente nada que impeça alguém abrir uma empresa e ter apenas um cliente.
A “brecha” é a seguinte, Denis: uma coisa é eu abrir uma empresa e trabalhar 1 ano num projeto para o cliente A, 6 meses para o cliente B, etc. Outra coisa é eu abrir uma empresa e trabalhar sempre para o mesmo cliente, ter uma mesa no cliente, meu chefe ser do cliente, ter “colegas de trabalho” respondendo a este mesmo chefe e atender o telefone dizendo “[nome do cliente] bom dia!”. Ou seja, sou de fato um funcionário da empresa mas não “recolho” como tal.
Realmente o que mais vai se ouvir por aí é “mas isso é melhor do que ficar desempregado” e nessa a gente vai levando e achando que está tudo certo. É realmente melhor do que ficar desempregado, mas certo não está.
Com tudo isso a nossa produção de software vai pras cucuias.
Será que os nossos gvernantes não conseguem entender o que, ha muitos anos, o Bill Gates já sabia?
Software é muito mais precioso que hardware!
Diversos países do mundo, como a Irlanada, possuem cidades com incentivo fiscal e até auxílio financeiro para empresas de desenvolvimento de software.
É por coisas como essas que acho que o futuro da nossa nação é negro!!!
Se por um lado é bom para o PJ, uma vez que ele consegue ganhar mais dinheiro, por outro lado é péssimo, pois não existe vínculo empregatício.
Você pode ser trocado ou ter seu serviço suspenso de uma hora para outra sem ônus para a empresa contratante.
Diversos amigos meus passaram por isso recentemente e estão na rua da amargura!
As taxas são cretinas. A Kombato ltda é uma empresa com eu apenas trabalhando, e eu e minha mãe na Diretoria. Só de taxas são 600 reais (porque terceirizo apenas 2 dos 11 lugares). Imagina que governo ladrão. Será que o Lula vai mexer nisso também? Seria uma boa né?
Bug
Esse tipo de contratação de “autônomo” é extremamente comum aqui no Brasil, incluisve em setores “qualificados”, como publicidade e computação gráfica (minha atividade profissional).
Sempre é aquele papo de “veja bem, a empresa é muito onerada, teríamos que pagar dois salários se você fosse um empregado efetivo, etc.”
Mas o que acaba acontecendo mesmo é a precarização das relações de trabalho em nome do não-desemprego. E assim, tal como numa espécie de “leilão para baixo”, vão se tornando cada vez mais raras coisas como 13º salário, férias, jornada de 8 horas diárias…