Eu tenho um gato. Quando ele faz alguma coisa ruim, como arranhar um móvel, eu espirro água nele. Quando ele faz alguma coisa boa eu dou um biscoito. Se eu não faço nada ele tende a continuar fazendo as coisas, é como uma aprovação automática. Eu preciso tomar cuidado, por exemplo, pra punir logo depois de ele ter feito a besteira, pra que o cérebro registre bem o que houve de errado. Hoje em dia salvo alguns problemas ele praticamente não arranha nenhum móvel e quase sempre me deixa dormir de noite. Com um bicho você vai aprendendo um sistema de feedback positivo e negativo: gostei, prêmio; não gostei, recriminação.
Só que a gente acha que com o ser humano é diferente, mas no fundo no fundo não é. Como um ser humano pode falar fica a impressão de que ela resolve tudo, mas ela é só mais um componente no sistema de feedback positivo/negativo. Quando uma pessoa faz uma coisa ridícula e ninguém fala nada ou até aplaude a coisa errada o cara começa a achar que aquilo é o que faz dele uma boa pessoa, uma pessoa acima do normal e continua fazendo mais e mais daquilo. Ao invés de acabarmos com um sofá arranhado acabamos com declarações desse tipo, do figuraça Carlinhos Bráu:
Nelson Motta - Aceitei com prazer o convite de vocês para uma conversa sobre “Tribalistas”, primeiro porque me encantei com o que ouvi e depois pela forma como foi produzido. Desta forma caseira, sem pressa e sem pressão. E isso se reflete no resultado musical. Essa nossa conversa aqui é para informar com sinceridade tudo sobre o disco. Como é que começou isso tudo? Quem ligou para quem? Como surgiu a idéia?
Brown - Não só o Brasil, mas o mundo inteiro parece se encaminhar a compreender o seu interior como um todo, não só o seu interior como cidade, não só o seu arredor, mas interior como um lugar onde você realmente habita e os tribalistas trazem isso; trazem na canção porque traz essa fertilidade, como quem planta milhos…
Essa é a única explicação que eu consigo ter pro Brown! Um belo dia ele falou uma coisa completamente desconexa, alguém achou aquilo o máximo (ou de repente achou alguma outra coisa o máximo e ele entrou numa de achar que era o fato de falar estranho) e ele desandou a falar mais e mais estranho. “Uau, eu perguntei uma coisa e ele respondeu outra coisa que eu não faço a menor idéia do que seja. Esse cara está muito à frente do meu pensamento, que gênio!”
Marisa Monte e Arnaldo Antunes (que também não é muito chegado em falar coisa-com-coisa) ainda se preocupam em responder às perguntas, mas o Carlinhos… ah Carlinhos…