Raiva nos olhos dos outros é refresco
Neste 1 ano desde 11-set uma das coisas que mais me irritou foi o papo dos americanos. “Por que nos odeiam? Somos um povo tão bom e justo e caridoso?” ou a outra versão, mais odiada ainda “Esses países são falidos e ficam com inveja da gente, deviam correr atrás e trabalhar duro como nós fizemos.”
Mas hoje falaram uma verdade na minha cara: os favelados odeiam os “riquinhos” (sendo riquinho todo mundo que não é favelado). Usando as palavras de quem me jogou essa verdade: isso não é uma constatação preconceituosa minha. É uma constatação feita com pesar. Eles me odeiam e eu nem sei direito o porquê. Eu sou uma boa pessoa, como é que podem me odiar assim?
É assim que começa uma guerra civil. Pense nisso…
Se você anda na rua e vê um “mano” tacando pedra em um carro importado você só consegue pensar nele como um bárbaro. Mas o carro é o WTC dele, um símbolo de poder e opulência rindo da cara dos pobres e pensando “eu trabalhei duro e posso ter meu carro”, o que é um pensamento simplista demais.
Eu não concordo com essa idéia de que um crime possa ser “justificado” ou “amenizado” pelo fato de que o pobre cometendo o ato contra o rico seria algo que uma compensação pelo desnível social entre os dois.
Essa concepção “socialista” dos porquês da criminalidade nunca levou a lugar algum, ao meu ver.
Não estou justificando não. Estou explicando. Ninguém gosta de ser “violentado”, mas achar que o cara faz aquilo por que é “mau” ou “vagabundo” também não leva a lugar algum.
É preciso entender para resolver lá na causa e não no sintoma.
Crisdias, é isso.
O mesmo que dizer “ah, se tivesse estudado ou se procurasse trabalhar não seria marginal”.
Se ele tivesse alguma chance, poderíamos ver se a culpa é dele ou de todos.
Veja bem. Eu já dei aula de informática em presídio de segurança máxima. Sequestrador, ladrão de banco. E realmente tinha cara que dizia “eu roubei pq achei que era uma maneira fácil de ganhar dinheiro e pronto”. Pra esse cara não tem estudo. OK… talvez tenha… o estudo faria ele ver que as coisas não são tão fáceis quanto parecem, mas o cara não estava a fim (rótulo: vagabundo) foi, roubou um banco e se deu mal.
Mas com educação e outras condições básicas pelo menos há uma “chance”. Se o cara estiver a fim de sair fora ele sai.
Estive lendo recentemente uma estrevista de Bruce Sterling, um dos pais do cyberpunk, e o cara me fez pensar um pouco sobre o assunto.
Em uma das perguntas que o repórter fez sobre a exclusão digital ele respondeu:
“Saida da frente do computador e vá dar uma voltinha na favela. Você está fazendo alguma coisa para ajudar essas pessoas a sair de tal situação? Então, você pode esperar exatamente a mesma atitude dos países ricos em relação aos países pobres (Brasil).”
O fato é que nos preocupamos tanto com os que estão acima de nós, que esquecemos daqueles que estão bem abaixo dos nossos pés.